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A ILUSÃO AMERICANA Eduardo Prado

A ILUSÃO AMERICANA Eduardo Prado

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A Ilusão Americana
Eduardo Prado

Versão para eBook
eBooksBrasil

Edição baseada na digitalização da edição em papel de 1917
Livraria e Oficinas Magalhães
A numeração das notas da edição digitalizada foi alterada para facilitar a leitura em eBook
Ortografia atualizada de conformidade com o Dicionário Aurélio eletrônico Século XXI, nov. 1999
Variantes em relação ao texto digitalizado estão indicadas por asteriscos.

©2002 — Eduardo Prado
ÍNDICE


O Escritor de “A Ilusão Americana”


“... Sinto a dupla felicidade de louvar, através do homem que tanto prezo; terra que tanto amo.”

Eça de Queiroz, o primoroso estilista da Casa de Ramires, assim disse do fino espírito do dr. Eduardo Prado, num artigo da Revista Moderna de Julho de 1898.
Ninguém melhor do que o romancista português apreciou e literariamente analisou as qualidades, o talento e as preferências do vigoroso escritor brasileiro, nesta célebre publicação na cidade de Paris.
O dr. Eduardo Prado foi publicista que se distinguiu com brilhantismo em nossa literatura. Ele era nacionalista, muito amava as causas da pátria brasileira, não obstante os tempos que passou em viagens mundiais, instruindo o seu espírito, distraindo-se e observando civilizações diferentes.
Nascido nesta capital de S. Paulo, em 1860, era filho do consórcio da ilustre Sra. d. Veridiana da Silva Prado com o dr. Martinho Prado.
O dr. Eduardo Prado escutou as portas do saber desde muito moço e tendo concluído o bacharelato, na Faculdade de Direito, que nos países latinos se tornou um complemento do batismo, pouco depois defendeu teses, e doutorou-se, foi quando empreendeu suas peregrinações.
Escritor e jornalista, ele revelou-se desde estudante na imprensa acadêmica e depois no Correio Paulistano. Escreveu as monografias e brochuras: Viagem ao Rio da Prata; Viagens; Viagem ao Oriente; O problema da Imigração; A Arte no Brasil; Fastos da Ditadura Militar no Brasil; A Ilusão Americana; Conferência sobre a vida e a ação do Padre Anchieta; Discursos proferidos no Instituto Histórico de S. Paulo; A Bandeira Nacional; Vida do Padre Manoel de Morais; Terra Roxa, este manuscrito perdeu-se; numerosos artigos da redação d’O Commercio de São Paulo e que foram publicados nas Coletâneas.
“Em tudo isto, — acertadamente disse o inolvidável literato dr. Afonso Arinos, no seu discurso de 18 de Setembro de 1903, na Academia Brasileira: — encontramos Eduardo Prado com os seus contrastes, o seu sarcasmo, a sua vivacidade, a singular harmonia entre as coisas sérias e as coisas alegres, as coisas leves e as coisas profundas.”
Brasileiro e americanista, o fluente e brilhante escritor paulista empregou as energias da sua inteligência, os recursos da observação e a coragem das idéias, na ocasião em que se operou neste país a transformação do regime governamental.
Eduardo Prado veio para a fileira do combate aos políticos que fizeram a República.
Achava-se então na Europa, e pertencendo a comissão representativa do Brasil na Exposição Universal de Paris, tinha colaborado no excelente livro Le Brésil en 1889 com a publicação dos dois artigos L’Art e Immigration; fez uma viagem ao país de Portugal, que ele tanto estimava afetuosamente e apreciava espiritualmente e logo na "Revista de Portugal", o escritor com o pseudônimo de Frederico de S., principiou a tratar dos “Acontecimentos do Brasil” em artigos que antecederam os Fastos da Ditadura Brasileira.
Estas publicações ecoaram com vibração intensa por todas as cidades deste país. Ignorava-se quem era Frederico de S., que analisava e criticava com o rigor da sua lógica aos desmandos e aos erros do novo regime proclamado pelo exército e armada em nome do povo.
Soube-se mais tarde que esse vigoroso escritor era o dr. Eduardo Prado que com a sua costumada independência declarava:
“O Brasil está neste momento sob o regime militar. Quanto tempo durará esse regime? No tempo do Imperador, quando o soberano resistia aos ministros, se estes insistiam — a coroa cedia.
Hoje quando o marechal Deodoro pensar de um modo e os seus ministros de outro quem cederá?
A espada que não tremeu ao ser desembainhada contra as instituições que o general jurara defender, não precisará mesmo reluzir de novo para fazer emudecer e sumir-se debaixo do pó da terra os novos ministros, talentosos patriotas, mas patriotas desarmados!”
Patriota na acepção legítima da expressão o dr. Eduardo Prado “agarrou-se às tradições do passado sem temor de ser esmagado no caminho; segurou-se ao rochedo da nossa História, viveu nela, viveu por ela e morreu fiel a ela...” Então respondeu de uma vez aos seus adversários e detratores:
“Anti-patriotas, nós? É uma injustiça! Nós que exaltamos a coragem do nosso povo, a sua energia, a sua constância; que temos um imenso amor pela sua História, pelo drama da conquista desta terra; que, com reverência, amamos a nossa raça e tudo que a ela se refere: as lendas da sua vida primitiva, as tradições do seu passado; que amamos a língua que falamos, a arte de nossos pais d’além mar; que temos imensa ternura pelo homem do campo, que com ele convivemos, ouvindo-lhes as longas narrativas e o pitoresco falar: nós, que temos votado a vida ao estudo de tudo quanto é brasileiro — nós não temos patriotismo!...”
Ainda é o dr. Afonso Arinos, no formoso discurso acadêmico de 1903 quem nos conta: — Moniz Barreto, “aquele moço de gênio que morreu em Paris aos trinta anos, depois de ter-se nos revelado um pensador, disse verbalmente a mim que Eduardo Prado era uma das mais completas organizações de escritor que ele jamais vira.”
E das suas qualidades de escritor de combate que as condições do Brasil obrigaram-no a adotar, disse o fulgurante estilista Eça de Queiroz:
“...Todos os seus livros são guerras e ele intelectualmente um guerrilheiro.
Desde a primeira página ao primeiro frêmito, as idéias alçam o pendão, as ironias despedem a sua flecha, os argumentos brandem a sua clava, as citações clamam, as cifras silvam e, na pressa e excitação da lide, tudo rompe, um pouco tumultuariamente, num arranque para avante, contra a causa detestada que urge demolir!...
E mesmo quando em dias de paz, recolhido e quase ajoelhado, gloriflca, como na Apologia do padre Anchieta, ainda alguma confusão se estabelece no seu estilo — mas docemente alvoroçada e enternecida, como a de turba piedosa que se empurra para um altar amado.
É que os seus livros são sempre atos intensamente vivos, ora uma hoste em marcha ora um povo em prece... Ele concebeu e trabalhou todos os seus livros num momento de urgência, por impulsivo patriotismo para atacar idéias ou homens de quem receava a desorganização do Estado ou para animar aqueles que reagiam contra essa desorganização pela força latente de alguma virtude social.”
Eça de Queiroz confirma esta apreciação da índole do publicista Eduardo Prado e da situação que coube ao Brasil transformado em República pelo pronunciamento militar e pela ação dos propagandistas democráticos, dizendo:
“Assim a vitória do Jacobinismo político e do fanatismo positivista determinou essas veementes crônicas de Frederico de S., Os Fastos da Ditadura, que acompanharão, na História, a ditadura com um silvar, de certo amortecido, mas perenemente desagradável de látego.
Assim as tendências norte americanistas da República provocaram esse esplêndido libelo, A Ilusão Americana, o mais forte que se tem construído contra a raça neo-anglo-saxônia, tal como a moldaram na América um solo novo, o uso muito duro da escravatura, o contato violento com as raças bárbaras, o excesso de democracia utilitária e a carência de uma tradição.”
Valente beluário foi o dr. Eduardo Prado, e como tal mestre na redação de panfleto, gênero de literatura que costuma aparecer nos períodos de agitação partidária e de veemência de paixões políticas.
Ainda é o romancista Eça de Queiroz quem nos vai dizer acerca da arte de panfletário em que o talento do dr. Eduardo Prado teve relevo:
“Todos os seus livros políticos desde os Destinos do Brasil, perfeito estudo de psicologia social são, pois panfletos... Certamente realizam e com singular rigor, a definição de panfleto formulada por Paulo Louis Courier, mestre panfletário deste século.
— Que é um panfleto? — "Uma idéia muito clara saída de uma convicção muito forte, rigorosamente deduzida em termos curtos e límpidos com muitas provas, muitos documentos, muitos exemplos..."
— E também:
“A mais corajosa, mais útil, mais pura ação, que um homem pode praticar no seu tempo, porque se a idéia é boa, derrama a verdade e, se é má, logo aparecerá quem a corrija, e a correção produzirá exame, comparação, prova e, portanto aproximação da verdade!...”
— A visão que este vibrante escritor tinha das coisas era: Como um fino dardo que vara horizontes.
A esta clara visão ele junta um raro poder de deduzir, de desfiar, de sutilmente desfiar, e de ligar depois os fios sutis numa trama miúda e resistente que, quando combate, se torna aquela rede de ferro com que os gladiadores no circo imobilizavam para a morte os contendores e quando solicita ou propaga, aquela doce rede de seda aconselhada pelos santos padres para docemente pescar as almas...
A todas estas superiores potências junta a potente paciência de esquadrinhar os textos, desenterrar os documentos, amontoar os exemplos, percorrer toda a História e toda a Natureza, para recolher um fato, um precedente, uma analogia, de sorte que a sua lógica, bem armada e destra, sempre combate sobre uma maciça, formidável muralha de prova.
E em todo este esforço, ajudado por uma memória de prodigiosa diligência e segurança. Ora, a memória é a décima Musa, ou talvez, a mãe das Musas.
A sua maneira de utilizar esses dons, o seu Estilo — é o melhor, o mais adequado a um publicista e, participa superiormente da natureza desses dons. É limpo, transparente, seco, quase nu, sem roupagens roçagantes e bordadas que lhe embaracem a carreira destra, ou deformem as linhas puras do raciocínio.
Não há nele molezas, repousos, tendências a vaguear e a cismar, mas sempre o mesmo ímpeto elástico o anima e arremessa.
Ainda menos tenta essas fugas vistosas de foguetes que estala nos ares, cuidadoso em nunca perder o solo maciço da Realidade, que a todos, como a Anteu, comunica força invencível; quando, por vezes, atinge a essa plenitude e abundância sonora que se chama Eloqüência, é porque, inesperadamente o exaltou a grandeza da verdade entrevista, um arranque generoso de indignação, alguma brusca emoção de piedade, ou aquela segura proximidade do triunfo, que solta todo som aos clarins...”
Desta forma completa e clara o apreciado escritor d’Os Maias tratou a individualidade literária e política do dr. Eduardo Prado, cavalheiro cuja amizade cultivou com extremosa afeição; espírito cujo brilhantismo, ele, perfeitamente admirou.

***

O feitio da sua intelectualidade de pugilista apareceu nitidamente no valente panfleto que é o livro A Ilusão Americana.
Embora, como escreveu o Poeta Olavo Bilac no seu discurso-resposta ao do dr. Afonso Arinos, na Academia Brasileira: “O escritor d’A Ilusão Americana exagerou bastante os perigos do que ele chamava e do que vós mesmo chamais a nossa: Desnacionalização.
...Tive e tenho para mim que Eduardo Prado foi sempre um firme, um puro e excelente brasileiro, no Brasil e na Europa, no Sertão e no boulevard.”
Outro panfleto ardente que a pena de Eduardo Prado escreveu é A Espanha e no qual trata do auxílio poderoso que os Estados Unidos deram aos cubanos insurgidos para conseguirem, afinal, a sua independência como nação, sem contudo deixar de fazer comentários à situação dos “povos da América do Sul que são fracos, são mal governados e, não pagando os juros da sua dívida ao estrangeiro estão prejudicando ou projetam prejudicar os interesses de cidadãos de países fortes...”
Mais adiante declara acerca do mesmo fato:
“A luta dos Estados Unidos e da Espanha é, talvez, o prólogo de um drama universal, representado em formas novas, com desprezo pela arte antiga e pelas convenções fora da moda, tais como o Direito, em geral, e o único Direito Internacional, muito especialmente.
Nos países fracos, devia ser proibido o estudo desse pretendido Direito, origem de perigosas ilusões entre os povos e de uma falsa confiança entre os governos de boa fé.
A guerra atual justifica essa opinião...” Coletâneas — vol. I, pág. 371.
O publicista Eduardo Prado com “a sua lógica bem armada e destra” expõe e confronta as fases do conflito hispano-norte americano e possuído de simpatia pela cavalheiresca nação de Cervantes, exaltou a sua atitude em face da política do Tio Sam.
E este “drama universal representado em formas novas” parece que era a visão dos tempos previstos pelo malogrado escritor.
Tempos que agora são de luto, sangue, horror, miséria e calamidade causada pela Guerra Atroz, no mundo inteiro.
Vem a propósito traduzir aqui o conceito do crítico dinamarquês Georges Brandés quando discutiu com o jornalista Clemenceau sobre o paradoxo de Fred. Nietzsche: “A moral da segurança necessária”, — Revue Suisse, Bib. Universelle.
Disse o autor das “Novos Rumos da Literatura”:
“Embora considere a guerra presente uma demência coletiva, recuso admitir que os agravos estejam de um lado só, les torts soient d’un seul côté...
Esta guerra como quase todas as grandes guerras é uma guerra econômica.
Naturalmente nenhum beligerante concordará nisto, pois, é mais conveniente dar aparências aos fatos. Pois cada povo não luta pela liberdade? Conforme declaram os seus intelectuais. — Desde a Rússia, a clássica terra do Absolutismo; a Alemanha, o país dos burgueses afidalgados e do caporalismo; a Grã Bretanha, que nunca deixou de se esforçar pela conservação da sua superioridade industrial no mundo; a França que nestes últimos anos aumentou consideravelmente o seu império colonial...
A verdade é que cada uma destas potências luta pela supremacia econômica.
Veja-se porém o que acontece: Cada nação se julga campeão de uma civilização superior e serve-se dos mesmos argumentos... Quanto às atrocidades digo que:
O homem é um animal feroz, capaz de tudo, uma vez que estiver armado e livre: só pensa em destruir, incendiar e matar. Ah! e, como os civilizados suportam a guerra? ...
Sim, depois de cada carnificina humana, nos consolamos em exclamar: Esta foi a última. É o que se dizia depois da de 1870: — Será a última guerra da Europa; puro engano! Nenhuma guerra é a última: a guerra é eterna como a maldade dos homens é perpétua.”
Pela sua vez o dr. Rudolf Kjellen, prof, na Universidade de Upsal, na sua monografia sobre os Problemas políticos da Guerra mundial, escreveu que:
“A guerra é um cataclisma geológico, uma catástrofe horrível! Que o seu problema é extenso e complexo, tem muitos problemas entreligados: o problema geográfico-histórico; o problema nacional freqüentemente ligado ao da raça; o problema sociológico e político que consiste em determinar até que ponto a política interior de um país pode influenciar a sua política exterior; finalmente, o problema Econômico, sem dúvida o mais imperioso e que parece dominar todos...”
Talvez fosse atendendo aos fatores destes problemas de sociologia, de política e de economia que o publicista Eduardo Prado na ocasião em que a guerra civil dividia extremamente as opiniões no Brasil escreveu A Ilusão Americana, denunciando com a sua argumentação as práticas dos Estados Unidos com as outras nações continentais e latinas
Seja como for, esse livro teve uma imensa popularidade; no momento em que o governo federal do Brasil negociava com o dos Estados Unidos amparo para a sua legalidade; pela sua vez a autoridade policial de S. Paulo confiscava a primeira edição que aqui aparecia e, o seu ilustrado autor foragia-se no sertão para garantir a sua liberdade, como também a vida contra a exaltação dos jacobinos.
A Ilusão Americana nos recorda um episódio de nossas lutas jornalísticas pelo princípio da liberdade neste país.
Éramos, então, prisioneiros d’Estado quando, cuidadosamente, um moço oficial, de nossa amizade, entregou um exemplar dizendo-nos: Veja este livro. Veio de S. Paulo e o governo proíbe que circule! ...
Mais de vinte anos decorreram desta poça de calamidade nacional. A intervenção da esquadrilha dos Estados Unidos nas águas do Rio de Janeiro cooperou bastante para o desastre da Revolução, celebraram-se diversas conferências pan-americanistas e agora pouca importância é ligada aos vôos expansionistas da grande Águia de Washington, cujas garras suplantam raios...
E do dr. Eduardo Prado, do seu luminoso espírito e da bondade do seu coração, restam reminiscências sinceras, pois ele faleceu prematuramente em 1901.
Foi o seu amor pela literatura e a tradição brasileira que o tomaram contrário “à imposição das instituições anglo-saxônicas da América do norte ao nosso país...”
LEOPOLDO DE FREITASMarço — 1917 — S. Paulo.



A Ilusão Americana


Pensamos que é tempo de reagir contra a insanidade da absoluta confraternização que se pretende impor entre o Brasil e a grande república anglo-saxônia, de que nos achamos separados, não só pela índole e pela língua como pela história e pelas tradições do nosso povo.
O fato de os Estados Unidos e o Brasil se acharem no mesmo continente é um acidente geográfico ao qual seria pueril atribuir uma exagerada importância.
Onde é que se foi descobrir na história que todas as nações de um mesmo continente devem ter o mesmo governo? E onde é que a história nos mostrou que essas nações têm por força de ser irmãs? Em plena Europa monárquica não existem a França e a Suíça republicanas? Que fraternidade há entre a França e a Alemanha, entre a Rússia e a Áustria, entre a Dinamarca e a Prússia? Não pertencem estas nações ao mesmo continente, não são próximas vizinhas, e deixam porventura de serem inimigas figadais?
Pretender identificar o Brasil e os Estados Unidos, pela razão de serem do mesmo continente, é o mesmo que querer dar a Portugal as instituições da Suíça. porque ambos os países estão na Europa!
A fraternidade é uma mentira.
Tomemos as nações ibéricas da América.
Há mais ódios, mais inimizades entre eles do que entre as nações da Europa.
O México deprime, oprime e tem por vezes, invadido Guatemala, que tem sangrentíssimas guerras com a república do Salvador, inimiga rancorosa da Nicarágua, feroz adversária de Honduras, que não morre de amores pela república de Costa Rica. A embrulhada e horrível história de todas estas nações é um rio de sangue, é um contínuo morticínio. E onde fica a solidariedade americana, onde a confraternização das repúblicas?
A Colômbia e Venezuela odeiam-se de morte. O Equador é vítima, nunca resignada, ora das violências colombianas, ora das pretensões do Peru. E o Peru? Já não assaltou a Bolívia, já não se uniu depois a ela numa guerra injustíssima ao Chile? E o Chile já não invadiu duas vezes a Bolívia e o Peru, não fez um horroroso morticínio de bolivianos e peruanos na última guerra, talvez a mais sangrenta deste século?
E o Chile não tem somente estes inimigos: o seu grande adversário é a República Argentina. Este país, que tem usurpado territórios à Bolívia, obriga o Chile a conservar um exército numeroso, e ninguém ignora que um conflito entre aqueles países é uma catástrofe que, de um momento para outro, poderá rebentar. O ditador Francia, o verdugo taciturno do Paraguai, que Augusto Comte coloca entre os santos da humanidade venerados no calendário positivista, por ódio aos argentinos e aos outros povos americanos, enclausurou o seu país durante dezenas de anos.
A República Argentina é a adversária nata do Paraguai. Lopez atacou-a, e ela secundou o Brasil na sua guerra contra o Paraguai. E que sentimento tem a República Argentina pelo Uruguai?
Não há um só homem de estado argentino que não confesse que a suprema ambição do seu país é a reconstituição do antigo vice-reinado de Buenos Aires, pela conquista do Paraguai e do Uruguai.
Eis aí a fraternidade Americana.

***

Voltado para o sol que nasce, tendo, pela facilidade da viagem, os seus centros populosos mais perto da Europa que da maioria dos outros países americanos; separado deles pela diversidade da origem e da língua; nem o Brasil físico, nem o Brasil moral, formam um sistema com aquelas nações. Dizem os geólogos que o Prata e que o Amazonas foram em tempo dois longos mares interiores que se comunicavam. O Brasil, ilha imensa era por si só um continente. As aluviões, os levantamentos do fundo daquele antigo Mediterrâneo soldaram o Brasil às vertentes orientais dos Andes. Esta junção é porém, superficial; são propriamente suas e independentes as raízes profundas e as bases eternas do maciço brasileiro. Por isso não vêm até às praias brasileiras as convulsões vulcânicas do outro sistema. Quando muito, chegam as vibrações longínquas, tênues e sutis que os instrumentos registram, mas que os sentidos não percebem. Conta o missionário jesuíta Samuel Fritz, que em 1698, uma terrível erupção andina transmudou o Solimões*, o rio brasileiro, num “rio de lama”, e que, apavorados, os índios viam naquilo a cólera dos deuses. Parece que, na ordem política, tais têm sido as erupções espanholas e revolucionárias que, afinal conturbaram as águas brasileiras. A torrente, porém, não é só de lama, porque é de lama e é de sangue...
Estudem-se, um por um, todos os países ibéricos americanos. O traço característico de todos eles, além da continua tragicomédia das ditaduras, das constituintes e das sedições, que é a vida desses países, é a ruína das finanças.
E na ruína das finanças o ponto principal é o calote sistemático, o roubo descarado feito à boa fé dos seus credores europeus. Os ministros da fazenda das repúblicas espanholas, por meio de empréstimos que não são pagos, têm extorquido mais dinheiro das algibeiras européias do que jamais a Europa tirou das minas de ouro e prata da América. Tomemos os fantásticos orçamentos destes países, e, no meio dos déficits pavorosos e das mais indecentes falsificações, na irregular contabilidade pública que conservam estes países, onde os dinheiros do estado são gastos e apropriados pelos presidentes com uma sem-cerimônia de que é incapaz o Czar da Rússia, o que é que vemos? Lá está o celebérrimo orçamento da guerra a tudo devorar. Lá estão as dezenas de generais, as centenas de coronéis e os milhares de oficiais.
É a prova de que não existe fraternidade americana.
Se as nações americanas vivessem ou pudessem sequer viver como irmãs, não precisariam esmagar de impostos o contribuinte nem arrebentar os respectivos tesouros, defraudando os credores com a compra desses armamentos e aparatos bélicos tão destruidores da prosperidade nacional.
Falemos agora da grande república norte-americana, e vejamos quais os sentimentos de fraternidade que ela tem demonstrado pela América latina, e qual a influência moral que ela tem tido na civilização de todo o continente.

***

No último quartel do século passado, homens extraordinários, da velha estirpe saxônia, revigorada pelo puritanismo, e alguns deles bafejados pelo filosofismo, surgiram nas treze colônias inglesas na América do Norte. Resolveram constituir em ação independente a sua pátria; e não lhes entrou nunca pela mente fazer proselitismo de independência ou de forma republicana da América. Nem isso era próprio da sua raça.
O fim que tiveram em vista foi um fim imediato, restrito e prático. Fazendo a independência da sua pátria, tinham como aliados os reis de França e de Espanha. Como poderiam eles querer que este último, a quem eram gratos pela sua intervenção em favor da independência, perdesse as suas ricas colônias americanas? Se alguma simpatia houve entre eles pela emancipação de outros países da América, essa simpatia apareceu trinta ou quarenta anos depois quando já toda América latina, à custa de sacrifícios, ultimava a sua independência sem auxílios norte-americanos.
É altamente cômica a ignorante pretensão com que escritores franceses superficiais procuram, ligar a revolução americana à revolução francesa, querendo por força que as idéias revolucionárias francesas tenham influído na América, quando, a ter havido alguma influência, foi antes da América sobre a França.
A pessoa de Franklin, com os seus calções pretos, sem espada ao lado, nem bordados, nem plumas, com os seus grossos sapatos de enfiar, o seu prestígio de sábio e de libertador, passeando através das galerias de Versailles; a fama de ter ele sido um simples operário na sua mocidade, isso sim foi uma influência real em França. Quando ele, no seu ceticismo cheio de bonomia, ria-se da pomposa divisa que lhe arranjou Turgot, o célebre: Eripuit cœlo fulmen sceptrumque tyrannis, — dava uma prova de que ao seu terrível bom senso não escapava a insensatez suicida da aristocracia francesa.
Quando rebentou a revolução, quando ela começou a matar e a incendiar, houve em toda a América uma grande simpatia por Luiz XVI e Maria Antonieta, os antigos aliados, os generosos protetores da independência americana. Pouco tempo depois o governo de Washington rompeu relações diplomáticas com a república francesa. Onde a solidariedade republicana, onde a fraternidade?
Vejamos na história: Que auxílio prestou o governo americano à independência das colônias ibéricas da América — Qual tem sido a atitude dos Estados Unidos quando estes países têm sido atacados pelos governos europeus — Como os tem tratado o governo de Washington — Qual tem sido o papel dos Estados nas lutas internacionais e civis da América latina — Qual a sua influência política, moral e econômica sobre estes países.
Tudo o que se vai ler neste trabalho é referente a esses pontos, que serão todos discutidos, embora nem sempre na ordem da sua enumeração.

***

À Inglaterra principalmente, e não aos Estados Unidos, deve a América latina a força moral que lhe permitiu fazer a sua independência. Foi William Burke a primeira voz que na Europa se declarou em seu favor escrevendo um vibrante panfleto, advogando a independência da América do Sul(1). O Abbé de Pradt e posteriormente Canning, que foi quem praticamente tornou possível, isto é, tornou efetiva e certa esta independência, já oficialmente aconselhada por Lord Welington no congresso de Verona(2). A independência das nações latinas da América em nada foi protegida pelos Estados Unidos.
À Inglaterra deveram então serviços consideráveis as nações que lutavam pela sua emancipação política.
O Sr. Carlos Calvo diz que a atitude dos Estados Unidos e a proclamação da doutrina de Monroe pesaram de uma maneira decisiva no ânimo do governo inglês quando * este, em agosto de 1822, pelo órgão de Lord Vellington, tomou no congresso de Verona a defesa dos países hespano-americanos, contra quem a Santa Aliança pretendia intervir em favor da Espanha.
Esta afirmação é errônea. Em primeiro lugar a chamada doutrina de Monroe só foi proclamada pelos Estados Unidos quinze meses mais tarde, isto é, em dezembro de 1823. E qual foi a atitude dos Estados Unidos em relação às colônias revoltadas? Um autor hispano-americano, o sr. Samper, da Colômbia, diz: “Enquanto a los Estados Unidos, es curioso observar que siendo esa potencia Ia más interesada en favorecer nuestra independencia, bajo el punto de vista político y no poco bajo el comercial, se mostró sin embargo mucho menos favorable que Inglaterra, indiferente por lo común hácia nuestra revolución y muy tardía en sus manifestaciones oficiales, como parcimoniosa en procurarnos los auxilios de armamento que solicítábamos, con nuestro dinero, de los negociantes y armadores”(3).
Muito antes da mensagem de Monroe, o embaixador americano, Rush, tinha recebido de Canning a confidência de que a Santa Aliança pensava em intervir na América a favor da Espanha, e Canning acrescentara estar disposto a se opor diretamente a esse plano se tivesse a cooperação dos Estados Unidos. Rush mandou as declarações de Canning ao seu governo que as recebeu com grande satisfação porque até àquela ocasião, segundo o contou depois Calhoun, que fazia parte do gabinete, os Estados Unidos não tinham julgado prudente intervir em vista do grande poder da Santa Aliança. Monroe tratava os seus secretários com consideração diversa da que usam os semi-bárbaros presidentes de outras repúblicas da América com os irresponsáveis que se prestam a ser seus ministros; comunicou a notícia de Londres ao gabinete, e consultou a Jefferson se devia aceitar o proposto auxílio da Inglaterra(4). Até então, a atitude dos Estados Unidos tinha sido toda de reserva, de abstenção, e, para uma nação que se quer apresentar como a protetora dos latinos-americanos, é forçoso confessar que essa política não era de fraternidade, mas sim de egoísmo. Ainda em 1819 o governo americano recusara receber os cônsules nomeados por Venezuela e pelo governo de Buenos Aires, alegando vários pretextos(5), e só a 9 de Março de 1823 é que reconheceu a independência das repúblicas espanholas.
Fortalecido e animado pela iniciativa da Inglaterra, em 2 de dezembro de 1823, o presidente Monroe disse na sua mensagem: “Devemos declarar por amor da franqueza e das relações amigáveis que existem entre os Estados Unidos e aquelas potências (européias), que consideraremos qualquer tentativa da sua parte para estender o seu sistema a qualquer parte deste hemisfério como coisa tão perigosa para a nossa tranqüilidade como para a nossa segurança. Com as colônias existentes e as dependências das mesmas potências não temos intervindo nem interviremos.
Em relação, porém, aos governos que declararam a sua independência e que a têm mantido, independência que, depois de grande reflexão e por justos princípios, nós reconhecemos, toda interferência, por parte de qualquer potência européia, a fim de oprimi-los e de qualquer modo dominar os seus destinos, não poderá ser encarada por nós senão como uma manifestação pouco amigável para com os Estados Unidos.”
Eis aí a famosa doutrina!
A nunca assaz ludibriada e escarnecida ingenuidade sul-americana viu nesta declaração um compromisso formal, solene e definitivo, de aliança com os Estados Unidos, aliança tão sensata aliás como a do pote de ferro com o pote de barro. Há setenta e um anos que o governo americano tem acumulado declarações sobre declarações, que equivalem quase que a retratações; há setenta e um anos que escritores, oradores, políticos americanos explicam que aquilo não é um compromisso nem uma aliança; há setenta e um anos que, por palavras, atos e omissões, o governo de Washington praticamente demonstra a significação restrita, e, por assim dizer, platônica das palavras de Monroe, e ainda hoje, há quem tenha superstição de tomar aquilo ao pé da letra. A estultícia parece que é invencível.
Poderíamos encher páginas e páginas de extratos de livros, de jornais e de discursos de americanos interpretando a chamada doutrina num sentido bem diverso da interpretação jacobina que hoje é acreditada no Brasil.
Preferimos, porém, relatar simplesmente os fatos.
Quem conhece os documentos oficiais americanos daquela época sabe que toda a política interior e exterior dos Estados Unidos estava subordinada aos interesses da instituição peculiar, eufemismo com que se costumava designar a escravidão. Os Estados Unidos, desde que sabiam que qualquer país americano estava disposto a abolir a escravidão, eram imediatamente hostis à independência desse país.
O pobre Haiti era o objeto do ódio americano. Hamilton, da Carolina do Sul, declarou na câmara dos representantes que a independência do Haiti, por forma alguma, devia ser tolerada; Hayne, acompanhado por todo o seu partido, queria que o simples fato de um país qualquer reconhecer a independência do Haiti fosse motivo para a ruptura das relações diplomáticas com os Estados Unidos. Em 1825, o governo de Washington pediu ao Czar da Rússia a sua intervenção junto à Corte de Espanha para que esta cessasse de hostilizar as suas antigas colônias, já de fato independentes, e especialmente a Colômbia e o México. E isto, dizia o secretário d’estado Henry Clay a Middleton, ministro americano em S. Petersburgo, porque o México e a Colômbia prosseguindo em sua hostilidade contra a Espanha, podiam eventualmente tomar conta de Cuba e ali acabar com a escravidão. Henry Clay mandou também pedir ao México e à Colômbia que adiassem a sua expedição libertadora de Cuba, e Middleton recebeu ordem para insistir junto ao Czar, chefe da Santa Aliança, porque os Estados Unidos faziam questão de impedir a independência de Cuba. O México e a Colômbia lembraram aos Estados Unidos o cumprimento da sua promessa contida na célebre mensagem de Monroe. Henry Clay respondeu que a mensagem continha* com efeito uma promessa, mas que os Estados Unidos tinham-na feito a si mesmos e não a um outro país, e que por isso nenhum país tinha o direito de exigir o cumprimento da mesma promessa.(6)
Os países hispano-americanos quiseram, parece que mais uma lição prática da doutrina de Monroe. Convocaram o célebre congresso de Panamá, assembléia destinada a la alianza de todas las Americas, à mútua fraternidade, etc., etc. Compareceram só os representantes de quatro países. Os Estados Unidos depois de muita hesitação, nomearam dois representantes que nunca chegaram a Panamá.
As instruções dadas a estes (1826) são talvez o melhor comentário da doutrina de Monroe. Delas resulta principalmente que os Estados Unidos não estavam por forma alguma dispostos a fazer suas as brigas da América latina com as potências européias. E nunca, mas nunca, os Estados Unidos mudaram de modo de pensar e de proceder.
Vamos ver os muitos fatos em que aquele governo, por seus atos, deu a interpretação autêntica da doutrina que os sul-americanos têm falseado. Antes, porém, daremos uma opinião valiosa, e que destrói pela base a crendice que se quer espalhar no Brasil que os Estados Unidos não consentem na América outro governo senão o republicano.
Os sul-americanos que isto dizem afirmam uma falsidade, e os que se regozijam com isso bem merecem o desprezo que os americanos lhes votam. Haverá coisa menos digna do que um cidadão desejar que a sua pátria não tenha a livre disposição dos seus destinos e esteja, quando se trata da escolha ou da mudança da sua forma de governo, dependente da vontade do estrangeiro?
Felizmente a nação americana, tenham sido embora grandes as faltas dos politiqueiros que tanta vez a têm desonrado, conta no mundo do pensamento homens do mais alto valor, herdeiros legítimos dos heróis da independência.
Eis aqui como um desses homens julga a doutrina de Monroe, na interpretação forçada e indigna que lhes querem dar os jacobinos brasileiros, que põem a república acima da pátria:
“Querer firmar o princípio de que os Estados Unidos não podem consentir na América nenhum sistema político diferente do seu, ou que não podem tolerar nenhuma mudança política tendo por fim substituir a forma republicana pela forma monárquica, seria ir além das pretensões do congresso de Laybach e de Verona que, pelo menos, tinham temor da destruição da sua obra política, enquanto que os Estados Unidos não podem ter esse temor”.(7)
Em 1786, um jovem brasileiro, Maia, estudante de Montpellier, disfarçando-se com o pseudônimo de Wandek e rodeando-se de mil mistérios, tentou aproximar-se de Jefferson, então embaixador dos Estados Unidos em Versailles. Aproveitando-se de uma viagem de Jefferson pelo sul da França, encontrou-se com ele em Nîmes, e aí falou-lhe da independência do Brasil, com que sonhava, e pediu-lhe o auxílio dos Estados Unidos. Jefferson desanimou-o, como se evidencia das cartas que o embaixador escreveu a Jay, Secretário de Estado, dando-lhe conta da entrevista que tivera com o jovem brasileiro. Em 1817, um emissário pernambucano foi aos Estados Unidos pedir auxílio; foi ludibriado, e o governo de Washington apressou-se em dar conta de tudo ao ministro português Correia da Serra. Por ocasião da independência do Brasil, não recebemos prova alguma de boa vontade por parte dos americanos, e só depois de outros países reconhecerem a emancipação do Brasil é que os Estados Unidos reconheceram a nossa autonomia.
Note-se que a célebre doutrina de Monroe data de 1823; foi na mensagem presidencial desse ano que aquele presidente estabeleceu a não intervenção da Europa nas coisas da América. Ora, dois anos depois, em 1825, é que a nossa independência foi reconhecida por Portugal, pela intervenção inglesa, representada na pessoa de Sir Charles Stuart, depois Lord* Rothesay. Mais tarde é que os Estados Unidos celebraram com o Brasil um tratado de amizade, comércio e navegação. O ministro americano no Rio, Raguet, opôs grandes embaraços à nossa nascente nacionalidade, embaraços que foram só em parte removidos pelo seu sucessor, William Tudor.
Para se fazer uma idéia do que foi a missão de Raguet basta percorrer rapidamente, a sua correspondência.(8)
Raguet acusa a nossa esquadra no Rio da Prata de covardia (pag. 20); diz que com o povo brasileiro é inútil apelar para a razão e para a justiça (pag. 32); Raguet em termos grosseiros ameaça o ministro dos estrangeiros de uma guerra com os Estados Unidos (pag. 27): “Isto não é um povo civilizado” (pag. 54).
Tal foi o procedimento de Raguet e tais foram as suas grosserias, que Henry Clay, Secretário d’Estado, mandou-lhe um despacho (pag. 108), estranhando as suas maneiras, e dizendo-lhe que era preciso não esquecer que, afinal de contas, o Brasil era um país cristão.
O governo americano ligou-se por esta época inteiramente aos governos que faziam pressão sobre o Brasil por motivo de questões de presas marítimas no Rio da Prata.
Durante as nossas lutas no Rio da Prata encontrámos sempre a oposição norte-americana entorpecendo a ação das nossas esquadras, desrespeitando os nossos bloqueios, conluiando-se com os nossos inimigos, e para depois, valendo-se das dificuldades iniciais da nossa independência política, fazer-nos exigências desmedidas e exorbitantes reclamações. O primeiro representante americano que veio ao Rio de Janeiro, ao findar o período colonial, deu origem a um desagradável incidente diplomático, faltando ao respeito à família real o que era uma injúria feita ao país.
O representante americano que tratou das reclamações de presas no Rio da Prata, depois de atropelar as negociações, rompeu bruscamente e retirou-se sem que houvesse motivo para essa desfeita, que foi aliás reparada pelo sucessor daquele diplomata William Tudor, que firmou conosco um tratado de amizade, comércio e navegação.
Leiam-se as insolentes mensagens do presidente Jakson ao congresso americano, referindo-se ao Brasil e aos outros países da América do Sul.
Aquele general sem escrúpulos, que foi o patriarca da corrupção na sua pátria, em suas mensagens ao Congresso, exprime-se com grosseira arrogância em relação ao Brasil e aos outros países da América do Sul.
Em 1830, não havendo mais guerra no Prata nem no Pacífico, o Secretário da Marinha insiste pelo aumento da força naval nas costas da América do Sul: “É preciso”, diz o secretário John Branch, “não diminuir as nossas forças, que são indispensáveis para a defesa dos nossos interesses perante aqueles governos instáveis e incapazes”.(9)
As exigências do governo americano foram enormes, e da própria correspondência do ministro Tudor se evidencia o desarrazoado de algumas das reclamações.
Assim, tratava-se, por exemplo, da escuna United States capturada pela nossa esquadra quando tentava forçar o bloqueio levando munições de guerra aos nossos inimigos. Era porventura possível duvidar da legitimidade da apreensão? William Tudor num dos seus despachos ao seu governo refere-se a exagerações das reclamações, e noutro despacho parece sentir que as coisas se tivessem arranjado pacificamente, e compraz-se em dar o plano de uma possível expedição naval americana contra o Brasil para bloquear Pernambuco, a Bahia e o Rio de Janeiro. E enquanto assim se exprimia o diplomata americano, da sua própria correspondência resulta que, por esse tempo, a escuna de guerra brasileira Ismenía salvava de piratas na costa de África um negociante americano, conservando-lhe um grande carregamento de marfim.
Da correspondência de Raguet vêem-se os contrabandos feitos nas costa do Brasil pela Morning Star Philadelfia; a insolência do comandante Biddle da Cyane com a nossa flotilha ao mando do almirante Pinto Guedes, vê-se a manobra fraudulenta do navio americano President Adams, saindo de Montevidéu com falso manifesto para Boston, e tentante ir abastecer o porto de Buenos Aires que o Brasil bloqueava.(10)
O Brasil teve de ceder às imposições norte-americanas, e pagou pelas reclamações a quantia de 427:259$546 réis, que naquele tempo valiam seis ou sete vezes o que valem hoje.(11)
Leiam-se os States Papers americanos do tempo, e há de se ver que, quando tratava com o nosso governo o almirante francês Roussin, que se apresentou na barra do Rio de Janeiro com a sua esquadra a nos fazer exigências, o ministro americano deu-lhe o seu apoio moral, e esteve bem esquecido de Monroe e da sua doutrina.(12)
Quando a Inglaterra e a França intervieram na República Argentina contra Rosas, o governo americano, que convivia em perfeita harmonia com aquele monstro, o que fez? Nada.
Entre as recomendações que o governo de Washington faz a William Tudor há a de preparar o espírito do governo brasileiro para a notícia que logo lhe seria dada do governo americano haver reconhecido D. Miguel como rei de Portugal. Com efeito no dia 1.° de Outubro de 1830 o presidente dos Estados Unidos recebeu oficialmente o sr. Torlades, encarregado de negócios de D. Miguel. O governo americano foi o único governo que reconheceu o rei absoluto e usurpador de Portugal!
Por essa época, o governo dos Estados Unidos tinha já organizado o seu plano de guerra contra o México, outra prova da solidariedade e da fraternidade americana.
A má fé do governo de Washington começou com a questão do Texas. Favoreceu quanto pôde a revolta daquele território, animou-o a separar-se do México para mais depressa absorvê-lo e depois declarou a guerra ao México, verdadeira guerra de conquista humilhou aquela república até ao extremo, e arrebatou-lhe metade do seu território. Ó fraternidade!
E a doutrina de Monroe o que era feito dela? A Inglaterra estendia as suas conquistas ao oeste do Canadá até chegar ao oceano Pacífico. Antes já arrebatara, contra todo o direito, as ilhas Malvinas ou Falkland à Confederação Argentina.
E será possível falar nas ilhas Malvinas sem recordar um dos maiores atentados contra o direito das gentes, neste século, atentado perpetrado por uma força naval dos Estados Unidos*, e aprovado e sancionado pelo governo de Washington? Em 1831, os argentinos tinham uma colônia nas ilhas Malvinas. Alguns navios de pesca, americanos, não quiseram obedecer a umas ordens do governador da colônia. Daí um conflito administrativo e diplomático entre o cônsul americano em Buenos Aires e o governo argentino.
Estava a questão neste pé quando a corveta americana Lexington saiu de Buenos Aires comandada pelo capitão Silas Duncan, foi às ilhas Malvinas, bombardeou o estabelecimento argentino, desembarcou tropa, matou muitos colonos, incendiou todas as casas, arrasando as plantações, levando os sobreviventes presos, uns para os Estados Unidos, e abandonando outros, em grande miséria, nas costas desertas* do Uruguai. Destruído o estabelecimento argentino, a Inglaterra tomou conta das ilhas.
O governo argentino em 1839 reclamou satisfação.
E o que lhe respondeu o governo americano pela palavra do Secretário d’Estado Daniel Webster?
Que o governo americano aguardava a decisão final do conflito existente entre a Inglaterra e a República Argentina a respeito da soberania das Ilhas Malvinas.
Ora em 1831, por ocasião do atentado americano nas Malvinas, a soberania argentina existia de direito e de fato sobre as Malvinas. De direito, reconheceram-no os mesmos Estados Unidos, porque na mensagem presidencial de 17 de novembro de 1818 referente à independência das antigas províncias unidas do Rio da Prata atribuía-se-lhe a soberania dentro dos limites do antigo vice-reinado de Buenos Aires que compreendia as Malvinas; de fato, eram argentinas as Malvinas, porque eram colonizadas por argentinos e administradas por autoridades argentinas desde 1829; só dois anos depois é que a Inglaterra se apossou dessas ilhas.
Como é que os Estados Unidos de quem tantas vezes tem-se dito que não consentirão que um país europeu se aposse de uma polegada de território americano, não duvidaram, no caso presente, pôr em dúvida a soberania argentina nas Malvinas em conflito com a usurpação inglesa?
E a República Argentina em 1884 renovando a sua reclamação obteve a mesma resposta. Propôs submeter o caso a arbitramento; o governo de Washington negou-se.
Eis aí a sinceridade americana quando fala na doutrina de Monroe e sustenta a teoria do arbitramento para a solução dos conflitos internacionais.
Mais tarde e em * Honduras, alargou a Inglaterra impunemente os seus domínios sem que saísse a campo a tal doutrina, e quando Schomburgh intrometeu-se em território brasileiro na lagoa dos Piráras, na fronteira da Guiana inglesa, retirou-se diante da energia da diplomacia brasileira, que nessa ocasião não encontrou e altiva nem pediu então o menor apoio em Washington, apesar de Monroe e da sua doutrina.
Correm os tempos, e o Brasil, a República Argentina e o Uruguai, em legítima defesa, empreendem a mais justa das guerras contra Lopez, do Paraguai. Lá encontramos a diplomacia americana a nos criar embaraços e, representada nas pessoas dos ministros Washburn e general Mac-Mahon, íntimos de Lopez, espectadores mudos e impassíveis das suas crueldades, seus verdadeiros cúmplices pelo silêncio e até pelo louvor.
Quantas dificuldades não criaram esses homens aos exércitos aliados? Ainda aí mostraram os americanos do norte qual a sua compreensão da fraternidade americana. Washburn e Mac-Mahon, abusando das suas imunidades, eram espias e auxiliares de Lopez, traindo o exército aliado.
E o procedimento do Brasil tinha sido todo de correção e lealdade em emergências bem graves para a república norte-americana.
Aquele grande país dera ao mundo um exemplo bem desmoralizador pelo seu apego à escravidão.
Enquanto no Brasil não houve escravocratas que tivessem o cinismo de querer legitimar a iníqua instituição, nos Estados Unidos, onde os senhores de escravos foram muito mais cruéis que no Brasil, publicaram-se livros, sermões, com a apologia científica e até religiosa da escravidão, e chegou o momento em que metade do país julgou que, para conservar e estender a escravidão, valia a pena sacrificar a própria pátria americana. O escravismo sobrepujou o patriotismo. E rompeu a guerra civil mais terrível e mais sangrenta de que reza a história. O governo de Washington deixou logo, aos primeiros tiros do forte Sumter, em Charleston, de dominar parte do território. Os rebeldes criaram uma verdadeira esquadra de corsários. O governo americano, que a ignorância ou a má fé estão agora querendo apresentar aos brasileiros como indefesso propugnador do progresso e das idéias liberais e humanitárias em matéria de direito internacional, tinha-se recusado a aderir ao tratado de Paris, de 1856, pelo qual fora abolido o corso como recurso bárbaro abandonado pelas nações cultas. Por uma punição providencial, foi contra os interesses do governo americano que se organizou o corso mais ativo e terrível de que há notícia. Os corsários sulistas correram todos os mares do globo. Nesse tempo, a marinha mercante americana era talvez a segunda do mundo. Com o desenvolvimento da corrupção política nos Estados Unidos, o favor feito aos poucos ricos armadores nacionais, a pretexto de protecionismo, tornou por tal forma cara a construção naval que a marinha mercante americana por assim dizer desapareceu. Os corsários sulistas tinham pois, naquele tempo, presas ricas e numerosas em que saciar a sua sede de vingança e principalmente de lucro.
Diante do incremento tomado pela revolta sulista, não foi possível às nações estrangeiras desconhecer nas relações internacionais, a personalidade jurídica dos confederados, nome esse que os revoltosos assumiram. De fato, senhores de vários pontos, dispondo de fortalezas, os rebeldes dominavam uma parte do território de que o governo de Washington, ao cabo de muito tempo, não se tinha podido apoderar. As nações estrangeiras não podiam deixar de considerar os confederados como beligerantes. Nem outra doutrina podia prevalecer. De outro modo, bastaria a qualquer governo declarar simplesmente rebeldes ou piratas as forças de terra ou de mar ao serviço dos seus adversários para privá-las de todos os direitos de guerra. Ora a revolução é um direito, segundo as teorias modernas, e as nações estrangeiras não devem entorpecer por qualquer modo, ainda que indireto, o exercício desse direito. Grocio diz que uma nação onde há uma revolta deve ser considerada pelos terceiros, isto é, pelos outros países, como duas nações separadas, cada uma com os seus direitos de beligerante. Os tratadistas de direito internacional dizem que para isso é preciso: 1.° que a revolta tenha já algum tempo de duração, não tendo podido o governo sufocá-la; 2.° que os recursos da revolta sejam importantes; 3.° que ela domine um parte do território quer marítimo quer terrestre. Ora os confederados estavam nesse caso, e o próprio governo americano criara um precedente contra si quando, em 1837, reconhecera como beligerantes os revoltosos do Texas, sem fazer caso das reclamações do México.
O reconhecimento dos insurgentes como beligerantes é coisa muito das tendências do direito internacional moderno. É uma medida aconselhada pelos próprios interesses da humanidade. O título de beligerante confere certos direitos; mas, a esses direitos correspondem certos deveres que, a bem de todos, devem ser cumpridos pelos beligerantes. Se se nega todos os direitos aos insurgentes, como pretender impor-lhes os deveres gerais da guerra? E ao interesse da humanidade convém que esses deveres sejam respeitados. Ora, se não há direito a que não corresponda um dever, também não há deveres a que não correspondam também direitos. Bluntschli, o oráculo do direito internacional, diz que, desde que os rebeldes se acham militarmente organizados, devem ser reconhecidos como beligerantes, e diz mais que o direito internacional atual fez um progresso mostrando-se disposto a conceder a qualidade de beligerante a um partido revolucionário. As leis da humanidade, diz ele, assim o exigem.(13)
Não tardaram os corsários sulistas em aparecer nos portos do Brasil, e o governo brasileiro manteve-se na maior discrição e na atitude a mais correta, somente permitindo que os navios fizessem água e recebessem carvão apenas em quantidade suficiente para, em marcha lenta, se transportarem ao mais próximo porto estrangeiro. O governo americano julgou dever reclamar pro forma, e o ministério dos negócios estrangeiros do Brasil, numa nota luminosa e digna, nota que é hoje clássica em direito internacional, defendeu o procedimento do governo imperial, e o próprio secretário de estado do governo de Washington, o eminente Mr. Seward, um dos mais notáveis estadistas americanos, deu-se por satisfeito com a justificação contida em a nota brasileira, assinada pelo ministro de estrangeiros, o conselheiro Magalhães Taques. Seward disse, em resposta, que se rendia à evidência demonstrada naquela nota habilíssima (most able note)(14). O amor próprio brasileiro, naquele tempo, podia ter satisfações destas.
Terminada a guerra civil, houve o grande litígio entre a Inglaterra e os Estados Unidos, a célebre contenda conhecida pelo nome de “Questão Alabama”. O governo do Brasil foi escolhido pelas altas partes litigantes para ser um dos árbitros entre as duas grandes nações. Não podia ser mais solenemente reconhecida do que foi então a lealdade e a correção do governo do Rio de Janeiro(15). Anos mais tarde, surgiu um litígio derivado ainda da guerra civil americana. O conflito era entre as duas grandes repúblicas do mundo, entre a França e os Estados Unidos. O árbitro único escolhido foi o Imperador do Brasil. No tribunal que funcionou em Washington, representou o soberano brasileiro o sr. barão de Arinos. No tribunal do Alabama, que funcionou em Genebra, o juiz brasileiro foi o falecido barão depois visconde de Itajubá. Vê-se, por isso, qual não era o prestígio do Brasil. Hoje, querendo os Estados Unidos fechar o mar de Behring, e, retrocedendo estranhamente para épocas passadas, restabelecer o mar clausum que Selden e Freytas defenderam no século XVII contra Grocio, o fundador do* direito internacional moderno, a Inglaterra opôs-se à pretensão e os dois países recorreram a um arbitramento. Parece que os tempos estavam mudados... Os Estados Unidos já não apelaram para o governo do Brasil, e o governo de Washington, que querem agora apresentar como o paladino da fraternidade americana, nem por sombras pensou em recorrer aos seus colegas presidentes de repúblicas latinas. Os Estados Unidos preferiram a arbitragem de algumas anacrônicas chancelarias de velhas e carcomidas monarquias européias!
Não seriamos completos em nossa demonstração de que os Estados Unidos, embora contem ilustres escritores de direito internacional, são mais egoístas e prepotentes em suas práticas do que as monarquias européias, se não nos referíssemos ao célebre incidente do Trent. O vapor deste nome, vapor inglês, levava, como passageiros, dois enviados diplomáticos representantes dos Estados Confederados, os srs. Sliddel e Mason, que iam, como enviados extraordinários e ministros plenipotenciários, em missão especial, um deles para Londres outro para Paris. Pois bem, um navio de guerra americano em alto mar, deteve o vapor inglês e violentamente arrancou de bordo os dois passageiros. Este ato, contrário ao direito das gentes, esse desrespeito ao pavilhão de uma nação neutra, esta felonia contra os dois diplomatas despertou a indignação de todos os governos, e o governo de Washington viu-se obrigado a censurar o oficial que perpetrou tão feia ação, mas aproveitou-se dela conservando por muito tempo os dois prisioneiros. Este ato é apenas menos condenável do que a vilania que contra nós praticou Solano Lopez, aprisionando em plena paz o vapor brasileiro Marquês de Olinda, vapor que levava o coronel Carneiro de Campos, presidente de Mato Grosso. Esta proeza parece que foi vivamente aconselhada a Lopez pelo cidadão uruguaio sr. Vazques Sagastume, hoje ministro no Rio de Janeiro, e portanto um dos corifeus da fraternidade americana.
Com o seu imediato vizinho meridional, o México, a política dos Estados Unidos terá sido uma política de fraternidade?
O fato mais importante dessa política, qual foi?
Foi uma guerra.
E essa guerra contra o México é pintada com verdade e eloqüência pelo historiador americano H. H. Bancroft:
“A guerra dos Estados Unidos contra o México foi um negócio premeditado e determinado de antemão. Foi o resultado de um plano de salteio, que o mais forte organizou deliberadamente contra o mais fraco. As altas posições políticas de Washington eram ocupadas por homens sem princípios, tais como os senadores, os membros do congresso, sem falar do presidente e do seu gabinete, e havia a grande horda dos demagogos e dos politiqueiros, que se comprazia em satisfazer os instintos dos seus partidários. Estes eram os senhores de escravos, os contrabandistas, os assassinos de índios, que, com as suas ímpias bocas maculadas de tabaco, juravam pelos sagrados princípios de 4 de julho, que haviam de estender o predomínio americano do Atlântico até ao Pacífico. E esta gente, despida das noções do justo e do injusto, estava disposta cinicamente a reter tudo quanto pudesse saquear, e invocando para isso o princípio único da força.
“O México, pobre, fraco, lutando para obter um lugar entre as nações, vai agora ser humilhado, espezinhado, algemado e vergastado pela brutalidade do seu vizinho do norte. E este é um povo que tem o maior orgulho da sua liberdade cristã, dos seus antecedentes puritanos! Veremos como os Estados Unidos começaram, então, a empregar toda a sua energia em descobrir plausíveis pretextos para roubar a um vizinho mais fraco uma vasta extensão de terra. E para que? Para aí estabelecer a escravidão.”(16)
A guerra foi precedida da intrusão americana no Texas, dos subsídios que os americanos deram à revolta por eles mesmos fomentada naquele território, cuja independência não tardaram em reconhecer como medida preparatória da anexação, que foi a gota de água que fez transbordar a paciência dos mexicanos. E esta paciência já tinha sido posta à prova de mil modos, por anos e anos numa longa série de vexames. As reclamações americanas multiplicavam-se. Extintas hoje, isto é, pagas a bom dinheiro pelo México, renasciam daí a meses. E as reclamações eram extraordinárias. Bancroft, entre outras, cita a reclamação de um americano que por cinqüenta e seis dúzias de garrafas de cerveja recebeu 8:260 dólares.(17)
Uma vez, o comissário americano Voss recebeu o dinheiro, e este não apareceu (Bancroft, pag. 320).
Em 1818, estando os Estados Unidos em paz com a Espanha, o general Jackson invadiu a fronteira da Flórida, capturou e guarneceu um forte espanhol, apoderando-se de Pensacola e de Barrancas.
Mais tarde, também sem declaração de guerra, o general Gaines fez incursões no México. Estava, pois, nas tradições do governo de Washington o começar a guerra contra o México, sem prévia declaração para de surpresa romper as hostilidades e invadir o território. E assim foi.
Vejamos agora como foi feita a guerra. Os americanos fizeram-na de um modo bárbaro. “O bombardeio de Vera Cruz durou quatro dias; foi horrível e inteiramente desnecessário”. (Bancroft, pag. 547). “O saque, as matanças de feridos no campo de batalha, os prisioneiros queimados vivos, são fatos confirmados pelas mais elevadas autoridades oficiais.”(18) “As barbaridades ilegítimas cometidas quase sempre com impunidade por uma massa indisciplinada como era o exército americano, estão, infelizmente, por demais verificadas (Bancroft, pag. 547). E isto estava de acordo com a opinião pública.
Leiamos as expressões dos jornais americanos:
Dizia um: “Devemos destruir a cidade do México, arrasando-a ao nível do solo. Façamos o mesmo com Puebla, Perote Jalapa, Saltillo e Monterey e feito isto, devemos ainda aumentar as nossas exigências”.
Dizia outro: “Aniquilemos os mexicanos, levemos a destruição e a morte a todas as famílias, façamo-lhes sentir um jugo de ferro, e assim seremos respeitados”.(19)
E o México perdeu quase metade do seu território.
Faz-se muito cabedal do fato dos Estados Unidos terem mais tarde intimado à França a retirada das suas tropas do México. Foi um serviço, mas como não tem o México pago caro este serviço? O governo de Maximiliano não se pôde manter, embora tenha sido o governo mais honesto que o México tem tido desde a independência. Maximiliano era um estrangeiro. Houvesse um príncipe mexicano, que aquela população, de índole monárquica, aceitaria unânime a monarquia. Demais, Maximiliano não quis sancionar os grandes abusos do clero, sobretudo em relação aos bens da Igreja. Não esqueçamos que o decreto abolindo os contratos agrícolas dos peones, revogação de uma lei antiga pela qual os trabalhadores das haciendas ficavam verdadeiros escravos, sujeitos até aos açoites, atraiu, contra o príncipe liberal, os ódios das chamadas classes conservadoras, que sabemos o que são, em toda a América latina. Parece que há uma fatalidade para os chefes de estados libertadores: Alexandre II da Rússia, despedaçado pelas bombas niilistas, Maximiliano fuzilado, Lincoln assassinado, e D. Izabel do Brasil exilada. O martírio é a consagração dos grandes feitos em prol da humanidade! No México, o sentimento monárquico é irresistível. Não pode restaurar a monarquia mas tem tornado impossível a república.
Porque no México não há, não houve, nem há de haver república. O notável escritor americano Gronlund diz que, se os Estados Unidos, na época da sua independência, tivessem encontrado um príncipe inglês, como o Brasil encontrou um príncipe português, a monarquia se teria estabelecido nos Estados Unidos(20). E o tempo teria feito desta monarquia um regime bem diferente do regime de opressivo monopólio e de cruel plutocracia que é hoje a essência mesma do governo norte-americano. Se se pode dizer isto dos Estados Unidos, com muito mais razão se dirá o mesmo do México.
A República, no México, como noutros países da América latina nunca será uma coisa impessoal; a república aí será sempre um homem. Foi Juarez, homem representativo, homem que representou o ódio ao estrangeiro. Ora, o ódio pode destruir; o ódio pode ser a verdadeira expressão do sentimento nacional num momento dado, mas o ódio não cria coisa alguma. Augusto Comte tem uma das suas intuições geniais, quando quer que as sociedades humanas tenham o amor por base. Só o amor é criador. Por isso Juarez nada criou. Don Sebastian Lerdo de Tejada, ministro e sucessor de Juarez, foi uma transição entre a política do ódio indígena e a concepção jurística da sociedade. Homem de lei, jurisconsulto pretendeu pôr tudo em artigos de códigos. Espiava-o o militarismo, surto comum e inevitável de toda a América Ibérica. Deposto e expulso Lerdo, pelo general Diaz, voltou o México ao militarismo sistemático. O general Diaz e o general Gonzalez revezam-se, há vinte e tantos anos, no poder, e o poder deles é praticamente absoluto. A constituição, copiada da constituição, americana, dá ao presidente quase todos os poderes. O congresso é nada, as eleições uma farsa.
O furor imitativo dos Estados Unidos tem sido a ruína da América. Péricles no seu célebre discurso do Cerâmico, disse: “Dei-vos, ó atenienses, uma constituição que não foi copiada da constituição de nenhum outro povo. Não vos fiz a injúria de fazer, para vosso uso, leis copiadas de outras nações”. Há muita grandeza na exclamação do gênio grego. Há uma presciência de tudo quanto descobriu a ciência social moderna que, afinal, se pode resumir nisto: As sociedades devem ser regidas por leis saídas da sua raça, da sua história, do seu caráter, do seu desenvolvimento natural. Os legisladores latino-americanos têm uma vaidade inteiramente inversa do nobre orgulho do ateniense. Gloriam-se de copiar as leis de outros países!
Todos os países espanhóis na América, declarando a sua independência, adotaram as fórmulas norte-americanas, isto é, renegaram as tradições da sua raça e da sua história, sacrificando ao princípio insensato do artificialismo político e do exotismo legislativo.
O que colheram desse absurdo, diz a triste história hispano-americana deste século. O Brasil, mais feliz, instintivamente obedeceu à grande lei de que as nações devem reformar-se dentro de si mesmas, como todos os organismos vivos, como a sua própria substância, depois de já estarem lentamente assimilados e incorporados à sua vida os elementos exteriores que ela naturalmente tiver absorvido. No Brasil tivemos a independência, fato lógico do desenvolvimento da sociedade colonial; a monarquia mantida foi o respeito da tradição e a conservação do país na sua índole histórica que ninguém pode mudar. O constitucionalismo e o sistema parlamentar adotados foram, até certo ponto, uma revivescência do passado, uma reprodução das cortes lusitanas, e coisa que muito se harmonizava com a organização quase espontânea, mas sempre representativa, e mais poderosa do que se julga, dos governos municipais e locais da colônia.
As idéias liberais do século, consagradas nas instituições coevas da independência acharam uma base histórica em que se firmaram. E isto deu ao Brasil setenta anos de liberdade.
Mais tarde, foi em 1889 cometido no Brasil o mesmo grande erro em que os hispano-americanos tinham caído no primeiro quarto do século, isto é, quando artificialmente se quis impor ao Brasil a fórmula norte-americana.
A perda da liberdade foi a conseqüência imediata, fatal, da desgraçada idéia. E nós, tardiamente, fomos tomar parte na fastidiosa e desalentadora tarefa em que vivem, há noventa anos, os hispano-americanos, isto na longa, vã, tormentosa, sangrenta e já degradante e inútil tentativa, quase secular, de querer implantar na América latina as instituições de uma raça estranha.
O grande orador americano Henry Clay falava, uma vez, em 1818, no congresso americano em favor das colônias espanholas revoltadas contra a metrópole: “Acredita-se geralmente em nosso país que os sul-americanos são muito atrasados e supersticiosos para se constituírem em nações livres. É uma injustiça. E a prova de que eles não estão tão atrasados é que estão adotando as nossas instituições e as nossas leis”(21). O insigne historiador Von Holst diz que Clay afirma um contra-senso; porque esta imitação servil, essa sim, é prova de incapacidade.(22)
O México copiou pois a constituição norte americana. Uma disposição constitucional dizia mais que o presidente era inelegível para o período presidencial imediato à sua presidência. Daí o híbrido e imoralíssimo pacto de Diaz e de Gonzalez. Diaz elege Gonzalez com a condição de Gonzalez eleger de novo a Diaz. E isto dura há mais de vinte anos. Agora, parece que Diaz não quer largar, e já fez reformar a constituição, revogando a incompatibilidade, vai-se fazer reeleger, e* Gonzalez vai ficar logrado. Fala-se já em revolução gonzalista, e o estado de sítio funciona no México com a mais invejável regularidade.
Eis aí o serviço que os Estados Unidos prestaram ao México livrando-o de um governo que, embora incriminado de estrangeiro, foi o mais brando, o mais civilizado, numa palavra, que jamais teve aquele desgraçado país. E não se limitaram a isso os bons ofícios da irmã república. Depois de haver retalhado o território mexicano em 1848, e sobretudo depois da vitória definitiva da república no México, os Estados Unidos constituíram sobre aquele país um verdadeiro protetorado, que mexicanos imprevidentes foram aceitando, sem ver que era a ruína e o descrédito da sua pátria. O duunvirato Diaz-Gonzalez atraiu para o México uma nuvem de aventureiros que patrocinados pela legação americana, apresentavam-se querendo concessões e privilégios, que lhe eram dados a troco de favores pessoais, de ações beneficiárias e de outras mil formas da fraude financeira. O México, a pretexto de armarem-no com todos os instrumentos modernos de progresso, foi a presa submissa e opima dos americanos. Tudo foi ali objeto de privilégio, tudo motivo para concessões com garantias de juros e outras vantagens onerosas para o tesouro. Os concessionários corriam para Nova York, e na bolsa de Wall Street obtinham dos incautos o dinheiro que desejavam. Quer imperasse Diaz ou reinasse Gonzalez o método era sempre o mesmo. Muitas vezes, membros do governo de Washington eram sócios dessas alicantinas, e se o governo mexicano fazia alguma pequena dificuldade em entregar o dinheiro, logo agia sobre ele a pressão diplomática. Diaz e Gonzalez amontoavam grandes fortunas e Washington rejubilava. Os jornais americanos anunciavam com entusiasmo os progressos da iniciativa americana, dizendo que a conquista financeira do México era apenas o prelúdio da conquista política que mais tarde viria. Nesse tempo, o ilustre Lerdo de Tejada que vivia em Nova York exilado, dizia a quem escreve estas linhas: “Os generais mexicanos, no meu tempo, roubavam nas estradas; agora roubam nas companhias. É um progresso”. A principal figura desta roubalheira, figura pouco simpática, mas parece que um pouco inocente nesses crimes, foi o general Grant. Aquele soldado feliz era um homem de curta inteligência, ignorante em matéria de negócios e, em todo o caso, um indivíduo sem grandes delicadezas. Logo que se tratava de um assalto qualquer às piastras mexicanas, o iniciador da idéia ia ter com o general Grant, e este logo dava-lhe o seu nome, o seu prestígio e a sua influência. Chegou então ao auge a jogatina e a imoralidade. O México, a pretexto de aplicação no seu solo de capitais yankees, era praticamente governado pela legação americana. O México deixou de ser dos mexicanos. Alguns patriotas protestavam; mas os generais Diaz ou Gonzalez dispunham logo do recurso de prender os patriotas e de proclamar o estado de sitio. O ilustre orador, o notável poeta do México, o sr. Altamirano, no meio do abaixamento geral, ergueu, contra a aliança americana, a sua voz eloqüentíssima “Não!” bradava ele no congresso “mil vezes a nossa pobreza antiga do que a ignomínia que presenciamos. O leão mexicano era livre na liberdade ampla das nossas serranias. O estrangeiro desleal e corruptor tem-no agrilhoado, e julga-se ainda seu benfeitor, dizendo que são de ouro* as cadeias com que o subjuga! Não! Vincula quamvis aurea tamen vincula sunt!” Enquanto esta voz ilustre se levantava no México, em Nova York, num grande banquete de confraternidade (financeira já se vê) entre figurões americanos e notáveis mexicanos, banquete presidido pelo general Grant, o sr. Evarts, um dos mais conhecidos estadistas americanos, antigo secretário de estado, usava de linguagem que bem justificava a indignação patriótica de Altamirano.
O sr. Evarts passava por ser o homem mais espirituoso dos Estados Unidos, mas, muitas vezes, apesar de homem letrado, tocava as raias da vulgaridade. Isto é muito comum nos Estados Unidos. Há aí muita gente com reputação de espirituosa, mas naquele país que, tendo tido a honra de ser a pátria de Edgar Poe deixou-o morrer na miséria e no desprezo geral, negando-lhe até hoje um monumento, as chocarrices dos profissional wits ou espirituosos de profissão, são muita vez acolhidas com entusiasmo. Eis o que dizia o sr. Evarts, entre as gargalhadas dos yankees, e os sorrisos, amarelos, dos mexicanos: “A doutrina de Monroe e por certo uma boa causa, mas, como todas as coisas boas antiquadas, precisa de ser reformada.
Essa doutrina resume-se nesta frase: A América para os americanos. Ora, eu proporia com prazer um aditamento: Para os americanos, sim senhor, mas, entendamo-nos, para os americanos do norte (aplausos). Comecemos pelo nosso caro vizinho, o México, de que já comemos um bocado em 1848. Tomemo-lo (hilaridade). A América Central virá depois, abrindo nosso apetite para quando chegar a vez da América do Sul. Olhando para o mapa vemos que aquele continente tem a forma de um presunto. Uncle Sam é bom garfo; há de devorar o presunto (aplausos e hilaridade prolongada). Isto é fatal, isto é apenas questão de tempo. A bandeira estrelada é bastante grande para estender a sua sombra gloriosa de um oceano a outro. Um dia ela flutuará única e ovante do pólo norte ao pólo austral.”
Comentários são estes do sentimento geral do povo americano.
Em 1836 no congresso americano, exclamava o senador Preston:
“A bandeira estrelada não tardará em flutuar sobre as torres do México, e dali seguirá até ao cabo Horn, cujas ondas agitadas são o único limite que o yankee reconhece para a sua ambição.”

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Continuava, porém, no México a orgia dos melhoramentos.
A repartição mexicana de estatística começou a ser de uma fantasia e de uma imaginação pasmosas. Concessão de caminho de ferro que fosse objeto de um decreto do executivo era imediatamente inscrita nos relatórios e nos outros documentos oficiais, não como um simples ato legislativo, mas como uma realidade efetiva. Eram mais tantos e tantos milhares de quilômetros de linha que se davam como feitos, e que os mapas do governo, destinados ao estrangeiro, traçavam orgulhosamente em longos riscos multicores. Qualquer tentativa de uma nova indústria, de uma cultura estranha era imediatamente classificada como uma fonte já criada e abundante de riquezas imensas.
Foi então que no Brasil houve ingênuos que começaram a se inquietar com a grande balela do café do México, e foi depois de 1er algumas daquelas estatísticas ultra fantasistas, que o sr. Quintino Bocaiúva fez propaganda republicana nuns artigos com este título: Olhemos para o México. Muita outra gente quis, mais ou menos por esse tempo, que os brasileiros olhassem também para a República Argentina, e viajantes boçais que dali vinham, depois de curto passeio, vinham republicanos. Tinham visto os restaurantes luxuosos de Buenos Aires, admirado as carruagens das cocottes e dos empregados públicos prevaricadores, tinham contemplado a arquitetura riquíssima dos bancos sem ver a fraude e a ruína que lá iam por dentro. Voltavam para o Brasil, e vendo os nossos ministros e parlamentares andando de bonde, vendo os modestos edifícios dos nossos bancos (então ainda acreditados), concluíam que o Brasil era um país atrasado e que a culpa era da monarquia.
É, porém, muito grande a força das coisas. Antes de rebentar a falência fraudulenta, não da República Argentina, mas dos maus governos daquele belo país, terminou escandalosamente o consórcio financeiro do México e dos Estados Unidos. Partiram as primeiras reclamações dos pobres acionistas defraudados; os infelizes que contribuíram para as extraordinárias empresas pomposamente patrocinadas pelos generais de uma e de outra república, começaram a perceber, embora tardiamente, que tinham sido atrozmente espoliados. As minas nada rendiam, as terras concedidas eram lhanos estéreis, serras inacessíveis ou pântanos e mangues pestilentos nas costas inóspitas do golfo ou do Pacífico. E nessas fantásticas criações, nos ordenados das diretorias, nos estipêndios à imprensa, nas remunerações a funcionários mexicanos e a diplomatas dos Estados Unidos, escoaram-se, volatilizaram-se os milhões de dólares subscritos. O grito das vítimas foi medonho. A princípio, o grande prestígio do general Grant foi um dique que por algum tempo conteve a onda da indignação que afinal irrompeu por toda a parte, nos meetings, na imprensa e nos tribunais de Nova York. A célebre empresa do caminho de ferro do Tehuantepec foi declarada em falência; os bancos suspenderam pagamentos, houve suicídios entre os figurões comprometidos, um filho de Grant foi arrastado aos tribunais, e o pobre general sofreu grandemente na sua popularidade, quando o seu nome se achou envolvido em tantos litígios escandalosos. A maior parte dos decantados melhoramentos do México ficaram adiados indefinidamente, o tesouro daquela república saiu arrebentado da luta, continuando debaixo do domínio de Diaz e de Gonzalez — o México é ainda hoje uma vítima, depauperada, da amizade e da fraternidade norte-americana.

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Esta rápida exposição demonstra o que é a fraternidade dos Estados Unidos para os países latinos. Vimos o México; vamos agora à América Central.
“Está no destino de nossa raça”, dizia na sua mensagem de 7 de janeiro de 1857 o presidente Buchanan “o estender-se por toda a América do Norte, e isto acontecerá dentro de pouco tempo se os acontecimentos seguirem o seu curso natural. A emigração seguirá até ao sul, nada poderá detê-la. A América Central, dentro de pouco tempo, conterá uma população americana, que trabalhará para o bem dos indígenas”. O senador G. Brocon em 1858: “Temos interesse em possuir Nicarágua. Temos manifesta necessidade de tomar conta da América Central, e, se temos essa necessidade, o melhor é irmos já como senhores àquelas terras. Se os seus habitantes quiserem ter um bom governo, muito bem e tanto melhor. Se não quiserem, que vão para outra parte. Vão-me dizer que há tratados, mas que importam os tratados se temos necessidade da América Central? Saibamo-nos apoderar dela, e se a França e se a Inglaterra quiserem intervir, avante ó doutrina de Monroe!”
A extraordinária história do flibusteiro Walker é das que melhor pintam a má fé norte-americana e o desprezo profundo que os governos dos Estado Unidos têm pela soberania, pela dignidade e pelos direitos das nações latinas da América. Houve um momento em que os americanos julgaram chegada a ocasião de conquistar a América Central. Tendo já conquistado metade do México, a conquista da América Central deixaria o que hoje resta do México independente, apertado entre dois territórios americanos, isto é, fadado a uma absorção rápida. Um aventureiro, William Walker, saiu em 1853 de S. Francisco, à frente de um pequeno exército de bandidos, formado debaixo das vistas protetoras das autoridades americanas. Este bando armado invadiu o território mexicano de Sonora, e Walker proclamou-se presidente do novo território, anexando-o por sua própria autoridade aos Estados Unidos. Teve, porém, de desistir do seu propósito e de render-se às autoridades federais americanas de San Diogo, que o tiveram de julgar pelo crime cometido e pela quebra da neutralidade, mas que, como era de esperar, absolveram-no. Por esse tempo, na infeliz república de Nicarágua tratava-se de uma eleição presidencial, o que nas repúblicas hispano-americanas é sinônimo de guerra civil. Estavam em campo dois candidatos, generais, já se vê, por sinal chamados, um Castellon e outro Chamarro. Mais ou menos eleito Chamarro, foi meio deposto por seu rival Castellon que, para fortalecer a sua situação teve a idéia desastrada de convidar a Walker a vir ao Nicarágua ajudá-lo a defender a constituição e o princípio da autoridade. Walker formou novo exército, e partiu de S. Francisco em maio de 1855.
Imediatamente, o ministro de Nicarágua em Washington, o sr. Marcoleta, queixou-se energicamente, mas o Secretário d’Estado Marcy fingiu ignorar o caso e não atendeu ao reclamante. Logo teve lugar a primeira batalha. Os nicaragüenses aliados de Walker parece que fugiram aos primeiros tiros, mas os 56 americanos que ele comandava levaram tudo de vencida, dando a Walker um imenso prestígio. Logo depois, outras vitórias do mesmo teor em Baía das Virgens, San Juan del Sur e Rivas, e sem resistência, Walker entrou em Granada. A cidade foi saqueada durante três dias, e Walker tendo feito uma proclamação garantindo a vida dos moradores, os principais destes voltaram às suas casas, e foram fuzilados sem demora nem processo. O ministro americano Wheeler, que estava feito com Walker, empenhou-se sobretudo para que aparecesse um cidadão importante chamado Mayorga, a quem deu todas as garantias, dizendo-lhe que ficava debaixo da proteção da bandeira estrelada dos Estados Unidos. Mayorga caiu na armadilha, e o ministro americano entregou-o a Walker, que o fuzilou logo com muitos outros cidadãos de Nicarágua(23). Walker arranjou logo uma espécie de tratado de paz com um general Corral, e fez presidente nominal da república a D. Patricio Rivas que, sob a pressão do medo, logo que pôde, fugiu das mãos de Walker, no que andou com prudência, porque dias depois o general Corral (outro protegido da legação americana) foi fuzilado. Walker ficou senhor absoluto do país, e a 12 de julho de 1856 proclamou-se ditador, tendo já o seu embaixador Vigil sido recebido solenemente pelo governo de Washington a 12 de maio do mesmo ano. A 22 de setembro Walker expediu um decreto restabelecendo a escravidão na Nicarágua. A escravidão havia sido abolida ali havia trinta e dois anos. Grande parte da imprensa americana e a maioria do congresso saudou com júbilo este decreto escravagista. As outras nações da América Central reconheceram o perigo, declararam guerra a Walker, que começou a receber grandes recursos dos Estados Unidos. A guerra seguiu com vária sorte. Walker incendiou completamente a cidade de Granada e recolheu-se a Rivas, praça que se rendeu ao general Mora em l de maio de 1857; e graças à intervenção do capitão Davis, comandante do navio de guerra, americano Saint Mary’s, Walker pôde escapar, refugiando-se com o seu estado maior e 260 soldados a bordo do mesmo navio de guerra, que os transportou para Nova Orleans, onde foram recebidos no meio de aplausos populares.(24)
Em Nova York houve um meeting em honra e favor de Walker. O presidente dos Estados Unidos, Buchanan, mandou um telegrama encomiástico a respeito de Walker, dizendo “que os heróicos esforços de Walker excitavam a sua admiração e a sua solicitude”(25).
Em Nova Orleans, sempre com a benevolência do governo de Washington, começou o aventureiro a organizar outra expedição. Denunciado pelos agentes diplomáticos centro-americanos, foi preso, sendo, porém logo solto mediante pequena caução.
Equipando o navio Fashion, partiu a 11 de novembro para Punta Arenas, onde desembarcou com 400 homens, sem que se opusesse a isto o Saratoga, vaso de guerra americano. O capitão Paulding, da marinha americana, chegando depois, obrigou Walker a render-se e trouxe-o para Nova York. Walker foi entregue aos tribunais, mas estes não o processaram, sendo, porém, processado e repreendido o capitão Paulding, por ter excedido as suas instruções e ter contrariado o governo de Washington, declarado protetor de Walker. Em agosto de 1860, Walker desembarcou em Truxillo (Honduras), apoderou-se da fortaleza e saqueou a cidade. O capitão Salmon, comandante do Icarus, navio de guerra inglês, intimou Walker a restituir a propriedade roubada. Walker recusou e fugiu. Foi perseguido, apanhado, o governo de Honduras, fê-lo julgar e fuzilar(26). O desastre final de Walker produziu indignação nos Estados Unidos. Quiseram fazer dele um herói sublime. O poeta Joaquim Miller exaltou-o e atribuiu-lhe:
A piercing eye, a princely air
A presence like a chevalier
Half angel, half Lucifer.

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Quem há, versado na história latino-americana, que não tenha na lembrança o bárbaro bombardeamento de S. João de Nicarágua (Greytown) em 1854? O comandante de um vapor americano matou cruelmente com um tiro de carabina, à entrada daquele porto, o patrão de um barco de pesca. As autoridades exigiram a entrega do criminoso. O ministro americano opôs-se; houve manifestações de desagrado ao ministro, e tanto bastou para que os Estados Unidos mandassem a Nicarágua a corveta Cyane, que exigiu todas as reparações, o pagamento de uma longa lista de pretendidos prejuízos sofridos por americanos, e 30:000 dólares de indenização ao ministro, pelas assuadas. Isto sob pena de bombardeio em vinte e quatro horas. A população, julgando que o caso se limitaria a algumas bombas arremessadas contra a pequena cidade, que apenas contaria umas quinhentas casas, retirou-se para o interior. O comandante do vaso de guerra inglês Bermuda protestou solenemente, declarando que só a fraqueza do seu navio impedia-o de opor-se pela força ao bombardeio. No dia seguinte, depois de atirar algumas bombas, o comandante operou um desembarque, e as suas tropas incendiaram todas as casas. A cidade ficou inteiramente destruída, e o prejuízo causado a estrangeiros pela destruição de mercadorias subiu a mais de 2.000:000 de dólares.(27)
Este crime não teve outra punição além do justo estigma da história.
Quando a Inglaterra começou a se apoderar dos territórios que cercam Belise e das ilhas Honduranas que constituem hoje o Honduras inglês, a pobre república de Honduras em vão apelou para a proteção do governo de Washington, alegando contra a violência que lhe era feita a doutrina de Monroe.
Nesta questão da Centro-América, longe de se opor à intervenção européia, o governo americano solicitou até a interferência da Inglaterra no assunto pelo tratado de 19 de abril de 1850, conhecido pelo nome de tratado Clayton-Bulwer. Por esse tratado os Estados Unidos associaram-se à monarquia européia para regularem a construção e a neutralidade do projetado canal de Nicarágua. E, coisa notável, uma das conseqüências deste tratado foi os Estados Unidos reconhecerem solenemente o domínio inglês no Honduras em detrimento das repúblicas espanholas no Centro América. Na cláusula 1a. deste tratado os dois governos concordavam que nem um nem outro poderia ocupar, fortificar, colonizar ou assumir ou exercer qualquer domínio sobre Nicarágua, Costa Rica, a Costa dos Mosquitos ou qualquer parte da América Central.
Em 29 de junho de 1850 o ministro inglês em Washington, sir Henry Lytton Bulwer, declarava que o governo inglês excluía daquela cláusula os estabelecimentos ingleses de Honduras, e a 4 de julho o secretário d’estado anuía numa nota admitindo que ficavam fora do tratado os estabelecimentos ingleses em Honduras(28).
Só em 1855 o ministro americano em Londres, Buchanan, solicitou que a Inglaterra abandonasse a ilha de Ruatan e outras de que a Inglaterra se tinha apoderado na costa de Honduras, assim como o território entre os rios Sibun e Sarstoon, e que a possessão inglesa de Belise se limitasse à parte dos tratados anglo-espanhóis de 1783 e 1786, e que a Inglaterra abandonasse a Costa dos Mosquitos. Lord Clarendon, ministro dos negócios estrangeiros da Inglaterra, repondeu com uma redonda negativa. E Monroe?(29)
Quando se formou na Europa, com sede em França, a malograda companhia do canal interoceânico, que obteve uma concessão do congresso colombiano, o governo de Washington saiu-se logo com a doutrina de Monroe, fazendo um terrível escarcéu. O velho Lesseps, porém, foi de Panamá a Nova York, foi a Washington e, como por encanto, toda a oposição cessou por parte da secretaria d’estado. Anos depois, tudo isto ficou explicado por ocasião do célebre processo de Panamá, e soube-se porque as influências americanas, os homens do governo de Washington deixaram de lado Monroe e a sua doutrina. No processo de Panamá verificou-se que milhões de francos foram misteriosamente gastos para acalmar escrúpulos e para suavizar a doutrina de Monroe. Eis qual tem sido o papel dos Estados Unidos em relação à grandiosa idéia do canal interoceânico. Aquele país tem empregado toda a sua influência para atrasar e embaraçar por todas as formas a grandiosa empresa, prometedora de benefícios para a humanidade, e isto para não prejudicar as companhias dos caminhos de ferro transcontinentais. É mais um serviço que lhe devem a Colômbia, o Equador, o Peru, a Bolívia e o Chile, países cuja prosperidade tanto necessita do canal de Panamá.
Quando em 1888 a esquadra italiana ameaçou os portos da Colômbia e do Equador, exigindo violentamente satisfações e indenizações, que proteção às suas irmãs violentadas deu a república norte-americana?
Nenhuma.

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Quer-se apresentar o governo americano aos brasileiros como o grande amigo das nações deste continente, como o seu protetor nato, e, no furor disso demonstrar, há jornais brasileiros, de tão atrofiado patriotismo, que chegam a colocar o Brasil como que debaixo do protetorado americano, fazendo do Rio de Janeiro o vassalo e de Washington o suserano. É contra esta falsa idéia, contra este esquecimento do pundonor nacional, que queremos reagir, relembrando aos nossos compatriotas o que tem sido a política americana.
Para o México, ela tem sido um algoz e para a América Central um inimigo.
Continuemos agora a ver o que os Estados Unidos têm feito contra outros países, sem esquecer a pobre república do Haiti, a quem os Estados Unidos tanto tem atormentado, a pretexto de indenização por prejuízos sofridos por americanos, nas muitas revoluções haitianas. Haiti e S. Domingos, já têm sido várias vezes ameaçados por navios de guerra da união americana, sempre a pretexto de indenizações reclamadas. E aqueles pobres países julgavam-se isentos destas reclamações; todos os seus governos tinham decerto, cautelosamente, expedido decretos dizendo de antemão que não se responsabilizavam pelos prejuízos que as suas revoltas causassem* tanto em terra como no mar!
Não é tão grande como se pensa no Brasil o empenho que têm os Estados Unidos de que a Europa não possua territórios na América.
A Dinamarca já lhes quis ceder a ilha de S. Thomaz; os habitantes aceitaram a idéia, mas os Estados Unidos recusaram. No momento dominava naquele país uma política de retraimento, reação do período anterior das invasões do México e da América Central. O presidente Grant mostrou-se disposto a adquirir Cuba, e hoje, que os Estados Unidos preparam-se com uma nova esquadra para fazer política exterior(30), as vistas americanas são para outro porto das Antilhas, para* o porto magnífico do Haiti, o Molhe S. Nicolas, cuja posse é exigida pela marinha americana para centro da estação naval do golfo, e para dominar completamente a passagem dos estreitos antilhanos. O governo americano, nestes últimos tempos, tem já tido as necessárias complicações com o Haiti, desavenças preparatórias para a conquista, que em documentos oficiais já ultimamente tem sido aconselhada e reclamada.
Devemos, a respeito de Cuba, mencionar de passagem a expedição que fracassou em Round Island em 1849, a que foi batida em Cardenas em 1850, a de 1851, comandada pelo caudilho Lopez, que, batido, foi executado, com cinqüenta dos seus companheiros(31).
Os patriotas cubanos que têm sonhado com a independência da pérola das Antilhas, puseram a princípio, grandes esperanças na doutrina de Monroe. Julgaram que os Estados Unidos não podiam deixar de protegê-los contra a metrópole. Como poderia a águia americana consentir que, à sombra das suas asas poderosas, continuasse uma parte do livre solo americano debaixo do jugo espanhol? Nova York, por muitas vezes, tem-se tornado o quartel general dos conspiradores cubanos. A legação de Espanha, em Washington, diversas vezes tem protestado contra a quebra das leis da neutralidade por parte do governo americano, que tem deixado organizarem-se verdadeiras expedições armadas contra o governo de Cuba. Qual tem sido o proceder do governo americano sem falar na célebre expedição Lopez? A princípio, deixa que a conspiração gaste dinheiro em Nova York, frete navios, compre armas, e à última hora vira-se contra ela, a polícia americana põe-se de acordo com o serviço de vigilância mantido pela legação espanhola, e os pobres patriotas são burlados nas suas esperanças. Mais de uma vez, as expedições têm chegado a sair de portos americanos, têm aportado a Cuba e têm sido invariavelmente batidas pelos espanhóis. Os patriotas cubanos, talvez injustamente, acusam sempre os seus auxiliares, americanos mercenários, de traição. Uma vez, a tripulação inteira de um navio, composta de americanos, foi inexoravelmente fuzilada em Cuba e, apesar da emoção que este fato produziu nos Estados Unidos, o governo do Washington nem por isso tomou a defesa da causa da independência cubana. Tem sempre abandonado esta causa, vendendo à Espanha a posse indefinida de Cuba, a troca de favores comerciais, isenções de direitos para produtos americanos, etc., etc. O frio egoísmo e o requintado maquiavelismo não são, pois, o privilégio exclusivo da negregada diplomacia das cortes européias.
Ninguém ignora que a república, então chamada da Nova Granada (hoje Colômbia*), concluiu com os Estados Unidos um tratado a respeito da construção de um caminho de ferro no istmo de Panamá, o mesmo caminho de ferro que mr. de Lesseps comprou depois por vertiginosa quantidade de milhões, por conta dos pobres acionistas da companhia do Canal.
Fez-se o caminho de ferro, e Panamá tornou-se um lugar de um trânsito espantoso. Trânsito do ouro que vinha da Califórnia e de americanos que iam para a Califórnia. Do ouro nada ficava em Panamá, mas dos americanos alguns ficavam, e estes exerciam diariamente a sua brutalidade contra os pobres habitantes, desgraçados south americans destinados a sucumbir ao contato do yankee. No dia 15 de Abril de 1856 as provocações americanas cansaram a paciência dos naturais de Panamá.
Os americanos começaram a fazer fogo de revólver contra os passantes, estes reagiram a pedra, depois a tiro. Numa palavra, houve um tumulto enorme e muitos mortos de parte a parte. Resultado: intervenção americana, intimação para o governo do istmo ser independente de Bogotá (isto é, entregue aos yankees) e 400:000 dólares de indenização.
Quem, porém, devia pagar as vidas dos neo-granadinos, tirados pelo americanos, e as suas casas incendiadas por estes? Veio o costumado ultimatum e o governo de Bogotá deu-se por muito feliz por ter somente de pagar a exorbitância que lhe era exigida pela força e contra todo o direito.(32)
Os Estados Unidos têm muitas relações com o Peru, e estas relações não têm trazido grandes benefícios para esta república latina.
A república do Peru sofreu também violências americanas.
Durante uma das muitas revoluções daquele país, vários navios americanos, entre outros a Lizzie Thompson e a Georgiana, aproveitando-se do fato dos navios de guerra peruanos estarem com os revoltosos, empregaram-se ativamente no contrabando do guano contra disposição expressa das leis peruanas. Os navios de guerra revoltosos entregaram-se ao governo, fato que deu muito prestígio ao princípio da autoridade e consolidação da república no Peru, que depois disso (1860) tem gozado de inalterável felicidade de riqueza e poderio, como sabemos. Um desses navios revoltosos, o Tumbes, logo que voltou ao serviço da legalidade, aprisionou, como era direito e dever do governo peruano, os navios contrabandistas. O que fez o governo de Washington? Reclamou cada vez mais insolentemente, rompeu as relações diplomáticas, andou procurando nos arquivos quanta espécie de reclamação havia, juntou tudo, lançou um ultimatum; e o pobre Peru teve de pagar.(33)
A história do Peru, depois do grande período trágico e heróico da conquista e depois de findo o domínio colonial, é bem simples. Tem sido setenta anos de desgraça que transformaram a mais rica possessão da coroa espanhola num dos países mais pobres e infelizes do mundo. Quatorze lustros de regime republicano! Houve, porém, um período de ilusória prosperidade, e é de estranhar que então alguém também não nos dissesse: Olhemos para o Peru! O grande período da nevrose e da megalomania financeira na Argentina foi o período da grande importação do ouro europeu, o período correspondente, no Brasil, foi o da fundação das finanças republicana, foi a época do papel. No Peru, a época pode ser chamada a época do guano.
Durante centenares se não milhares dê anos, segundo os cálculos do sábio Raymondi, os pelicanos do mar, as aves dos rochedos, as gaivotas das praias, revestiram as fraldas dos penhascos, as planuras e encostas dos ilhotes e das enseadas fragosas, de uma grande e profunda coberta de dejeções que constituíram uma enorme massa de matéria alcalina e fosfatada com que a indústria começou, há uns trinta anos, a revigorar as terras exaustas pelas culturas seculares. Para os vales da Virgínia depauperados pela esgotante cultura do tabaco, para os campos da Inglaterra e da Alemanha, foi levado, em grandes carregamentos, o adubo salvador, comprado a peso de ouro no Peru. Isto que devia ser a riqueza da infeliz nação foi uma causa de desgraça. O esterco, que ia ao longe fertilizar as terras estéreis, serviu para ativar a putrefação do governo e do país todo. O guano foi declarado propriedade nacional e a sua extração era objeto de concessões feitas a particulares. Os particulares eram, em regra, parentes ou amigos dos homens do governo, e tornavam-se, em todo o caso, seus sócios. O tesouro recebia grendes proventos do guano, já em troca das concessões, já sob forma de direitos de exportação. Foi nesse tempo que o governo peruano viu-se preso de um bem singular motivo de inquietação ou de susto, susto que parece ser próprio aos estadistas financeiros, em vésperas de grandes desastres. Também no Peru se perguntava na imprensa, no congresso, em conversas particulares: O que fazer dos saldos do tesouro? Pergunta insensata!
Há um conto oriental — do homem a quem o destino deu um milhão por dia com a condição do homem gastá-lo todo no tempo compreendido entre duas auroras.
A falta do cumprimento desta condição era a morte do infeliz. Prazeres, gozos, prodigalidades, tudo isto bastou, nos primeiros dias, para consumir o milhão diário. Em pouco tempo veio a fadiga, o esgotamento e debalde trabalhava a imaginação do homem para achar o meio de esvaziar os últimos sacos de ouro que ainda estavam cheios quando já alvorecia a aurora do novo dia. Apareceu o Anjo da Morte e anunciou ao desgraçado o seu fim. Lamentou-se o homem: Não consegui gastar o meu milhão! E o Anjo da Morte respondeu-lhe: — É que tu esquecestes o único meio que havia para isso! — Qual era? — Fazer o bem!
Ora, os países, vitimados pela superabundância de dinheiro, só têm um meio de escapar a esse mal, aliás singularíssimo. É fazer o bem. E há tantos modos de um governo ser benfazejo! Não falamos de socorros públicos, de grandes esmolas coletivas, de dinheiro distribuído pelos pobres ou pelos soldados, sinais certos estes do esfacelamento do caráter nacional, fatos próprios das tiranias expirantes e dos pretorianismos insaciáveis. A ciência política caminhou desde a antiguidade. Hoje, o dinheiro público, que vem do imposto, sendo mais do que é necessário para os serviços públicos, o que há a fazer é pagar as dívidas do estado, se o estado tem dívidas. Se as não tem ou se não convém liquidá-las por qualquer razão, não há outro alvitre honesto senão a diminuição dos impostos.
Os Estados Unidos, há bem pouco tempo, tinham um saldo embaraçoso, uma grande reserva metálica que muito deu que falar. Por alguns anos prevaleceu, até certo ponto, nesse particular, a política honesta e sensata, de aplicar esse saldo à amortização da dívida. Os protecionistas não queriam consentir na diminuição dos impostos de entrada, que eram os que mais avolumavam o* saldo. A tentação era, porém, muito grande e muito pequenos eram os escrúpulos dos políticos. Em pensões escandalosas, em subsídios injustificáveis foi malbaratado o saldo. Apareceu o déficit no orçamento. O tesouro, para favorecer os ricos proprietários das minas, continuou a permitir a livre cunhagem da prata, foi transformando um metal desvalorizado numa moeda também depreciada e, em virtude da célebre lei de Gresham — que a moeda depreciada faz emigrar a moeda de valor — o ouro emigrou para a Europa, e o país todo caiu na pavorosa crise econômica em que hoje se debate, sobrenadando no naufrágio os grandes capitalistas e os homens do monopólio, sendo, porém, a classe pobre, os operários, mergulhados na miséria a mais negra.
O Peru, dizíamos, achou-se em sérias dificuldades diante de tanto dinheiro. Não lhe veio à mente a idéia de fazer o bem, que seria, no seu caso, o pagamento das dívidas nacionais ou a diminuição dos impostos. Por essa época, o ministro das relações exteriores mandou uma circular às legações peruanas, ordenando-lhes que, convocando os principais economistas dos países onde se achassem acreditadas, expusessem-lhes a situação financeira do Peru e pedissem àqueles luminares da ciência conselho e opiniões para aquele grave caso. O Peru sofria, o Peru ia morrer talvez e desesperado recorria à ciência, perguntando-lhe quais os remédios para o seu mal, para a terrível doença: a pletora de dinheiro. Variaram talvez os alvitres, mas a doença desapareceu por si, antes de ser aplicado ao enfermo o receituário da douta faculdade. Dois generais de boa vontade, os generais Pardo e Prado, secundados por outros colegas, por muitos coronéis e por um exército todo metido a político, acabaram com os saldos, e o Peru deixou de ser exceção na América espanhola, ficou tão falido como qualquer outra república, dando-se a integralização na quebradeira hispano-americana.
Nessa época de desmoralizações administrativas que chegam até à legenda, foi grande no Peru a maléfica influência dos Estados Unidos. Os aventureiros americanos enchiam Lima. Como no México, esses aventureiros eram apresentados pela legação americana, por ela patrocinados, e o posto de ministro americano no Peru tornou-se muito lucrativo. De vez em quando, lá iam boas somas em indenizações a yankees concessionários de guanos ou de qualquer outra coisa e que se pretendiam lesados pelo governo. Ora, esses movimentos de capitais, não se dão sem deixar algumas aparas nas mãos da diplomacia de Washington. Falava-se também, às vezes, em doutrina de Monroe, o que não impediu a Espanha de agredir o Peru e o Chile, bombardear Valparaiso sem que dos Estados Unidos partisse uma voz sequer em favor dos países vítimas da violência daquela nação européia. A esse propósito escrevia um ilustre argentino:
“A doutrina de Monroe não convém à América do Sul, e o exemplo mais curioso que citei é o desse bombardeio de Valparaiso. A esquadra norte-americana dos mares do sul assistiu impassível ao bombardeio de Valparaiso, porque, em virtude da doutrina de Monroe, as potências européias ficam excluídas de toda a intervenção na América. Em virtude dessa doutrina aquela esquadra deveria opor-se ao bombardeio, mas para se opor eficazmente ela precisaria do apoio das esquadras da França e da Inglaterra presentes no porto, e essas esquadras, ainda em virtude da tal doutrina, abstiveram-se e deu-se o bombardeio. Por este exemplo vê-se de que utilidade pôde ser a doutrina Monroe para a América do Sul(34).
Voltemos, porém, ao Peru.
O guano foi diminuindo pouco a pouco.
O governo do Peru lançou mão do trabalho dos chins, reduzidos nas guaneiras, a verdadeiros galés e na realidade escravizados nas estâncias e nas fazendas de açúcar. Esse tráfico de escravos amarelos era feito por umas casas americanas, e quase sempre sob a bandeira estrelada que protegia a escravidão asiática, já na Peru, já em Cuba. O porto de saída desses desgraçados era Macau. O governo português começou a se impressionar com o escândalo, e o relatório que Eça de Queiroz, cônsul de Portugal na Havana, apresentou ao governo demonstrando as monstruosidades cometidas contra os chins, apressou talvez o fechamento do porto de Macau à emigração chinesa. Houve americanos estabelecidos no Peru e ligados aos agricultores peruanos que se enfureceram com a supressão do tráfico amarelo, e foi então que se organizou uma das mais hediondas empresas de pirataria de que há notícia. Foi armado um grande navio, que saiu mar em fora e demandou o pequeno grupo de ilhas perdido no oceano Pacífico conhecido pelo nome de ilha da Páscoa, e que hoje foi anexado pelo Chile.
Essas ilhas, célebres pelos estranhos monumentos graníticos que lá deixou uma raça desaparecida, pelos vultos colossais de pedra esculpida plantados nas encostas das montanhas, por uma civilização ignota, eram povoadas de polinésios, raça suave e inofensiva, de uma inocência paradisíaca, que o contágio exterminador do homem civilizado ainda não vitimara. Os flibusteiros desembarcaram na ilha, mataram as crianças, os velhos, e quase todas as mulheres, e acorrentaram e algemaram os homens válidos que, atirados ao porão do navio, foram trazidos para o Peru como escravos. Quando a notícia deste horrível atentado ecoou na Europa, o governo inglês comoveu-se e ordenou ao ministro de Inglaterra em Lima que informasse sobre o assunto. Verificada a exatidão da notícia, o governo inglês exigiu inexoravelmente que os infelizes escravizados lhe fossem entregues pelos cidadãos republicanos da América.
Recolhidos a bordo de um navio de guerra inglês, os desgraçados que tinham escapado à ferocidade americana, foram restituídos às suas ilhas, devendo sua salvação ao espírito cristão da Inglaterra, às sociedades humanitárias compostas* de burgueses, de mulheres religiosas e de curas de aldeia, que naquele país, que é o mais poderoso e livre do mundo, têm bastante influência para mover a imprensa, a opinião e o governo em favor de uns míseros selvagens, perseguidos a milhares de léguas de distância.
Era esta e originava fatos desta ordem a situação política e financeira do Peru, quando houve a guerra com o Chile. Depois da utilização das guaneiras que estavam quase esgotadas, no extremo sul do país e na costa boliviana, descobriram-se, ou antes, começaram a ser utilizados, os chamados campos de nitrato de soda, isto é, grandes e espessas camadas dessa substância, provindas parece que de feldspatos decompostos pela ação das águas termais e sepultados hoje nos areais do deserto de Atacama. Esses nitratos são, como o guano, adubos de grande valor para as terras. Assim, aquela região de absoluta aridez, começou a dar a terras distantes a fertilidade que ela mesma não tinha. Afluíram para Atacama os grandes capitais e as grandes energias dos chilenos. A concorrência foi fatal a peruanos e a bolivianos. O Chile foi logo senhor da indústria dos nitratos. Começaram as autoridades bolivianas a vexar por todas as formas fiscais e administrativas os chilenos. Daqui incidentes diplomáticos, conflitos, questões e, por fim, a guerra.
Nessa guerra havia: de um lado, o pequeno exército chileno triplicado pelo número de voluntários; do outro, havia dois exércitos desmoralizados por longos anos de intervenções na política, desorganizados pelos pronunciamentos, desprestigiados pelas confraternizações, aviltados pelas traições e pelas falsidades que são a sorte comum da vida de todo o exército que se mete em política. A vitória, árdua, gloriosa nas suas dificuldades, terrível nos seus efeitos, coroou a energia da administração chilena. A guerra estava a findar quando se deu a célebre intervenção norte-americana, episódio curiosíssimo da história da América do Sul.
O ministro americano Hurlbuth era o legítimo representante dos interesses fundidos das casas americanas e dos políticos peruanos nos escândalos da exploração do guano e dos mil negócios que, à sombra da diplomacia norte-americana, tinham já arruinado o Peru. A vitória chilena era a desorganização de toda aquela federação de interesses e de corrupção. Era presidente dos Estados Unidos o general Garfield e chefe do gabinete ou secretário de estado, o famoso James C. Blaine.
Singular e estranha personalidade era a deste quase grande homem! Havia nele como que um último alento do sopro heróico dos tempos da independência e da grandeza intelectual dos estadistas americanos. Ele era uma espécie de Hamilton, de Clay, de Webster, ou de Seward, mas era incompleto, era desigual e desequilibrado. Faltava-lhe a grandeza moral daqueles vultos ou talvez simplesmente a sua estrela. Na audácia, na vastidão dos seus projetos, era de um arrojo quase genial. Na execução, os seus meios eram fracos, as suas hesitações eram longas, os seus recursos pareciam poucos, os seus aliados eram ignóbeis, seus motivos dir-se-iam pessoais e mesquinhos, talvez imorais; a sua política era tortuosa e a mise en scene, embora espetaculosa, nunca deu-lhe, aos olhos dos seus compatriotas, senão esse prestígio incompleto, que sempre lhe bastou para dar-lhe a audácia dos grandes intuitos sem, contudo, garantir-lhes o sucesso. A razão de tudo isto era, quem sabe, se simplesmente a diferença que há entre o tempo dos grandes homens a quem Blaine sucedeu na política, e a degenerescência da antiga tradição dos velhos estadistas americanos.
Os pais da pátria americana, os fundadores da constituição, viveram num período histórico de pureza moral, em tempos de patriotismo e de abnegação. Blaine floresceu no império do industrialismo e da finança, na expansão de todos os despotismos do monopólio e de todas as corrupções da plutocracia. Não é uma simples banalidade a velha proposição de Montesquieu de que as repúblicas precisam ter como fundamento a virtude. Esse foi o fundamento da república norte-americana. Será inviável e uma fonte perene de males, qualquer outra república que não tiver o seu berço banhado na atmosfera da virtude cívica. As sociedades políticas e as formas do governo precisam de nascer puras para ter a vida longa e próspera. Os organismos políticos são como os organismos animais e vegetais; quanto mais perfeitos nascem e quanto mais robusta é a sua infância, mais garantias apresentam de duração.
Nunca se viu uma república nascer disforme para a vida da violência, do crime, da discórdia, da corrupção e do erro para daí se adiantar até à virtude, à paz e à verdade.
Imaginará alguém porventura a república romana nascendo com Sila e Catilina e acabando em Fabrício e Cincinato? A crença universal sempre atribuiu à humanidade em seu aparecimento a frescura de todas as forças vivas.
A podridão é própria dos túmulos e não dos berços. O que há a esperar de uma existência humana cuja infância não tiver sido inocente?
Querer justificar a corrupção e o crime quando aparecem, por assim dizer, identificados e consubstanciados com uma república que começa, dizendo que tudo isto é próprio das instituições novas, é falsear a verdade histórica. Não; o nascer das repúblicas, se não for rodeado do perfume da abnegação, se não fumegarem em roda do seu berço o incenso puro e a mirra incorruptível do sacrifício e do patriotismo, não promete e não dará nunca no futuro senão crimes e desgraças.
A república norte-americana não teve a sua infância corroída pela corrupção, nem a sua puerícia se passou nos jogos sangrentos das guerras civis. Era ela já quase secular quando o seu solo foi fratricidamente regado pelo sangue de seus filhos, e os vícios contra os quais lutam hoje os patriotas, as faltas que lhe apontam os pensadores, são vícios de hoje, faltas atuais, que se não podem justificar no exemplo dos antepassados. A lição da história da independência e os exemplos das gerações extintas são espelho de virtude.
Blaine foi e tinha que ser o estadista da sua época.
Tinha bela presença, a sua voz era insinuante, o seu olhar era agudíssimo, o seu sorriso era cheio de finura. Foi chamado o homem magnético. Era um grande orador e um escritor de raça. A sua ilustração era vasta em assuntos da política nacional, deficiente no resto dos conhecimentos humanos, mas o seu talento supria tudo. Fez-se grande e subiu por si. Os seus adversários atribuíam-lhe grande número de capitulações de consciência com os interesses de grandes financeiros, e sua pobreza sabida era um pouco contraditória com o luxo de sua vida, com o seu belo palácio de Washington, com os vastos salões, cheios de objetos de arte e de retratos, bustos, estátuas, medalhas, quadros, gravuras e mil outras recordações de Napoleão, herói da especial admiração de Blaine. O estadista republicano tinha idéias dominadoras e o temperamento cesariano. De todas as paredes da casa de Blaine, o olhar profundo de Bonaparte cravava-se nos visitantes. Napoleão não terminara a conquista da Europa e nos abismos dos seus pensamentos estava a ambição de dominar o Oriente e a Ásia. Blaine via na política mais do que a arte de ganhar eleições, o seu talento de orador pedia talvez um teatro igual ao teatro em que representam os Gladstone e os Salisbury. Debaixo das ogivas de Westminster, a palavra da eloqüência pode decidir da sorte de um povo. Nas estreitezas do sistema presidencial, o presidente pode ser um incapaz, um incompetente teimoso, armado de imenso poder contra o qual são inúteis todos os esforços do talento. Blaine sentia-se afogado naquele meio, e toda a sua imaginação volvia-se para a política exterior. Na política exterior ele foi o lisonjeiro por excelência do espírito da dominação americana sobre todo o continente. Ele imaginava a águia americana pairando, de pólo a pólo, com as asas poderosas expandidas. A águia simbólica ele não a via protegendo os fracos com a sua sombra, como acredita a ingenuidade de alguns sul-americanos. Ele queria que ela dominasse, que o seu olhar perscrutasse as solidões geladas do pólo, os vales profundos dos Andes, as planuras do Amazonas, a vastidão dos pampas e o infinito dos mares. Ele queria que o bico adunco daquele pássaro apocalíptico rasgasse os inimigos, e que as garras colossais se apoderassem de todo o continente de Colombo. Blaine no poder, era uma ameaça para toda a América.
Quando chegava ao seu termo a guerra do Pacífico, Blaine era secretário de Garfield, e Blaine teve uma ocasião de tentar fazer prevalecer a política que ele mesmo chamou a política imperial dos Estados Unidos.
O presidente Hayes, embora tivesse sido derrotado pelos eleitores, acabava de exercer o seu mandato usurpado, ocupando ilegalmente a cadeira de presidente em que o colocara um voto fraudulento do Supremo Tribunal encarregado da apuração eleitoral. O patriotismo de seu competidor, o presidente eleito, Tilden, preferiu deixar o usurpador na suprema magistratura a abrir um conflito que levaria, com certeza, o país a uma nova guerra civil. O general Garfield, apenas eleito, confiou a direção da política internacional a Blaine, e a atenção deste volveu-se logo para a luta entre o Chile, o Peru e a Bolívia.
A primeira destas nações estava em vésperas de colher o fruto das suas árduas vitórias, impondo aos vencidos uma paz garantidora dos interesses, da tranqüilidade e da segurança do Chile no presente e no futuro. Começaram a se agitar no Peru e em Nova York os interessados americanos, sócios de peruanos e bolivianos nas concessões de guanos e na extração dos nitratos. A consagração da vitória chilena era o fim definitivo do regime das concessões, dos privilégios e dos mil abusos, tão úteis aos americanos, na desordem financeira do Peru e da Bolívia. O ministro americano Hurlbuth, em Lima, os seus colegas generais Adams, em La Paz, e Kilpatrick em Santiago, entraram na combinação. Era preciso uma intervenção dos Estados Unidos em favor dos vencidos, e contra o Chile, e em benefício direto dos especuladores americanos e seus sócios.
Já dissemos que, por ocasião da guerra do Paraguai, os ministros americanos Washburn e general Mac-Mahon constituíram-se os defensores acérrimos de Lopez, foram seus comensais, testemunhas, e, pelo silêncio, cúmplices das suas horríveis atrocidades. Iludido pelas notícias dos seus diplomatas, o governo de Washington considerou Lopez, por muito tempo, como a vítima simpática do bárbaro exército aliado. Foi preciso que o ilustre coronel Von Versen, que há pouco morreu general do exército alemão e ajudante de ordens do Imperador Guilherme II, foi preciso que este europeu, um dos prisioneiros de Lopez que mais sofreram da sua tirania, fosse libertado depois de Lomas Valentinas pelo marquês de Caxias e, indo aos Estados Unidos, escrevesse a verdade sobre Lopez, para desfazer no espírito do governo de Washington a indisposição que, contra o Brasil, tinham criado a falsidade das informações diplomáticas. O governo americano esteve até em termos de mandar uma esquadra à América do Sul para proteger a Lopez.
Em relação ao Chile, deu-se a mesma coisa. O governo americano quis arrancar ao Chile o resultado das suas vitórias. As informações dos ministros americanos no Pacífico medraram depressa no ânimo de Blaine, sempre disposto à política da intervenção, de arrogância e de quase despotismo em relação aos outros países da América. Os especuladores do guano e dos nitratos falaram-lhe de grandes lucros para o comércio americano e, entre a administração americana e os especuladores, houve acordos, combinações e arranjos muito suspeitos. Em resultado disto tudo, Blaine despachou para o Chile, como medianeiro de paz, Mr. Trescott, que levava como seu secretário Mr. Walker Blaine, filho do Secretário de Estado. O enviado extraordinário, em missão especial, levava instruções de proteger a todo o transe os interesses dos homens dos guanos e dos nitratos e ordem para, esgotados os meios suasórios e de conciliação destinados a apressar a paz, dar um ultimatum ao Chile, impondo-lhe dentro de certo prazo a retirada das suas tropas do território do Peru e da Bolívia. Era a mais brutal intervenção, a mais injustificável das prepotências.
Mr. Trescott, em Lima e em Santiago, tinha-se posto de acordo com o ministro de França, e sua ação contra o Chile devia ser conjunta com a da diplomacia francesa. Era interessada nesta questão dos guanos uma grande casa judia, os Dreyfus, de Paris, de quem fora advogado o então presidente da República Francesa, que os jornais republicanos, nesse tempo, chamavam ainda o íntegro Grévy, alguns anos antes do processo em que ficou provado que o seu genro Wilson tinha, no palácio do presidente, agência montada de venda de empregos e condecorações.
Onde estavas ó doutrina de Monroe!? As duas grandes repúblicas do mundo achavam-se reunidas num esforço comum em razão dos interesses pessoais dos seus chefes. Os Estados Unidos, que são contra a ingerência européia em negócios americanos, associaram-se a uma nação européia contra uma nobre república sul-americana numa empresa de verdadeira extorsão.
Neste ínterim, numa estação de caminho de ferro, em Washington, ao lado de Blaine, caía assassinado pelo fanático Guiteau o presidente dos Estados Unidos, o general Garfield. Em menos de vinte anos, dois presidentes dos Estados Unidos eram assim trucidados: Lincoln e Garfield.
O presidente assassinado foi substituído pelo vice-presidente Arthur. Diz-se que os príncipes herdeiros são em geral os chefes da oposição. Nas repúblicas, o vice-presidente é o inimigo natural do presidente efetivo. Quem é segundo é sempre contra quem é primeiro. Nas repúblicas sul-americanas, o vice-presidente acaba, quase sempre, conspirando contra o presidente, muitas vezes depondo-o, a menos que, mais prontamente, o presidente em exercício não suprima por qualquer forma o seu rival. Nos Estados Unidos as coisas não chegam a este ponto, mas os vice-presidentes que têm assumido o governo têm feito sempre o contrário dos seus antecessores. A subida de Arthur foi um grande golpe para Blaine e para a sua política. Enquanto o diplomata Trescott achava-se no Chile, foram pouco a pouco transpirando na libérrima imprensa americana, imprensa que atravessou mais de um século sem a menor coerção, imprensa que, mesmo durante a tremenda guerra civil, não sofreu grandes peias nem restrições, — as notícias vagas a princípio e depois afirmativas e positivas do conluio de Garfield, de Blaine, e dos negociantes de Nova York contra o Chile. Achava-se reunido o congresso, e nos Estados Unidos, o governo não ousa sonegar documentos nem esclarecimentos de certa ordem ao poder legislativo. A comissão dos negócios estrangeiros, da Casa dos Representantes, ocupou-se da missão Trescott e, numa reunião, levantou-se o deputado democrata Perry Belmont que, com provas nas mãos, demonstrou a iniqüidade e a vergonha do governo americano ir ser o procurador dos especuladores peruanos e americanos junto ao Chile. A impressão foi imensa nos Estados Unidos. O governo chileno, com uma audácia extraordinária, mandou aparelhar os seus encouraçados, empenhados na guerra contra o Peru, à espera do ultimatum de Mr. Trescott. Viesse esse ultimatum, e os navios de guerra chilenos partiriam para S. Francisco para vingar a afronta. O presidente Arthur, porém, pôs um termo ao grande escândalo. Despediu Blaine do poder e substituiu-o pelo sr. Frelinghuysen. Este telegrafou logo a Trescott dizendo-lhe que se retirasse do Chile, e teve a franqueza de dar ao ministro chileno em Washington uma cópia das instruções de Blaine a Mr. Trescott. Deu-se então um incidente de um cômico singular. O ministro dos negócios estrangeiros do Chile perguntou a Mr. Trescott se era verdade que ele tinha ordem de apresentar-lhe um ultimatum. Trescott negou a pés juntos. Então o ministro chileno mostrou-lhe a cópia das próprias instruções dadas a Trescott. Desmoronou-se tudo, e assim terminou, no opróbrio e na vergonha, a orgulhosa embaixada que os Estados Unidos mandaram ao Pacífico!
Blaine, porém, e o espírito de intrusão e de prepotência diplomática que existe em certos meios americanos, tiveram, anos depois, a sua desforra. Rompera a guerra civil no Chile, e Blaine achava-se de novo na secretaria de estado, servindo desta vez com o presidente Harrison, que mais tarde também o despediu. Os homens de grande superioridade intelectual são, nas repúblicas, pouco compatíveis com a mediocridade dos círculos governamentais. Desde o começo da guerra civil chilena, o ministro americano Patrick Egan, anarquista irlandês de mau nome, declarou-se em favor dos insurgentes, protegendo-os por todos os modos com quebra manifesta dos seus deveres. Como é sabido, os principais chefes da revolução eram os homens mais ricos do Chile, grandes capitalistas, industriais e banqueiros opulentos. Esta circunstância explica talvez a singular atitude da legação americana. Derrotado e aniquilado o partido de Balmaceda, houve reclamações americanas, já por prejuízos sofridos, já por desacatos feitos a marinheiros americanos. O novo governo chileno, ainda em luta com mil dificuldades, pediu um prazo. A resposta que lhe deu o governo americano foi a ordem à esquadra de mandar alguns encouraçados a Valparaiso e um insolentíssimo ultimatum. O governo chileno teve que ceder, Blaine tirou a sua desforra, e mais uma vez o governo de Washington humilhou uma república sul-americana.

__________

Temos visto que não há país latino-americano que não tenha sofrido as insolências e às vezes a rapinagem dos Estados Unidos. Para terminar, lembraremos dois fatos acontecidos com o Paraguai e com Venezuela.
Em 1853 o Paraguai fez um tratado geral de comércio e navegação com os Estados Unidos. O senado americano não ratificou o tratado, mas apesar disso o governo de Washington nomeou seu cônsul no Paraguai o sr. Hopkins. Este senhor, apesar das suas funções consulares, pretendeu logo, à moda americana, ganhar muito dinheiro em mil especulações. Embalde tentou levantar capitais em Londres e em Paris. Teve então a idéia genial de comprar em Nova York um navio em péssimo estado (Não é de hoje que ali se vendem navios avariados!) e fê-lo segurar por 60:000 dólares.
Este navio naturalmente naufragou na viagem, e com o dinheiro do seguro Hopkins achou-se à testa do capital necessário para fundar a “Companhia do comércio e navegação do Paraguai”.
Este cônsul tornou-se logo exigentíssimo junto do governo paraguaio, e foi tão insolente que o governo de Assunção cassou-lhe o exequatur. Para se ver livre de embaraços Hopkins declarou que a sua segurança pessoal estava ameaçada, assim como a dos seus compatriotas, e reclamou o auxílio do navio de guerra americano Water Witch, e este auxílio lhe foi dado. O sr. Hopkins, à testa de marinheiros armados, desembarcou e foi ao consulado buscar os papéis de tal companhia.
Estavam as coisas neste pé quando a situação ainda mais se agravou. O comandante da Water Witch quis passar por um canal, cujo trânsito era proibido aos navios. O forte de Itapiru fez alguns tiros de pólvora seca para prevenir o americano. Este, porém, desprezou o aviso, e respondeu com uma descarga geral de bala contra o forte, que por sua Vez fez-lhe fogo vivo e certeiro que causou sérias avarias a Water Witch, onde morreram muitos marinheiros, mas e só então, o navio americano virou de bordo, desistindo do seu propósito.
O governo de Washington mandou contra o Paraguai uma esquadra de vinte navios e de dois mil homens de desembarque, para extorquir à pobre república l milhão de dólares que lhe reclamava o sr. Hopkins. Esta esquadra custou ao governo perto de 7 milhões de dólares de despesas, e voltou de Montevidéu graças à mediação do governo argentino, sendo celebrado um tratado em virtude do qual as reclamações de Hopkins foram sujeitas a uns árbitros, e estes declararam, como não podiam deixar de declarar inteiramente fantásticas as reclamações do cônsul americano.
O Paraguai, porém, não obteve reparação alguma pela violação do seu território cometida pelo agente americano.(35)
O fato com Venezuela é também característico. O governo americano tinha uma porção de reclamações contra Venezuela, a propósito de prejuízos sofridos por cidadãos americanos durante as guerras civis venezuelanas. Pela convenção de 25 de abril de 1866 foi nomeada uma comissão mista que, em 1868, deu sentença contra Venezuela, obrigando esta a pagar dólares 1.253:310.
Verificou-se mais tarde que o comissário americano David M. Talmage, e que o ministro americano em Caracas, ajudados pelo americano Wiliam P. Murray, formaram uma sociedade para ganhar dinheiro com o negócio, já defraudando os próprios reclamantes americanos, exigindo-lhes 40 e 60 por cento das indenizações concedidas, já prejudicando o governo de Venezuela, admitindo reclamações fraudulentas, aumentando mesmo estas reclamações para mais folgadamente poderem os reclamantes pagar-lhes as porcentagens. Isto ficou provado perante a comissão dos negócios estrangeiros do senado americano em 1878. (36)
Ainda ultimamente desembarcou em Nova York um general venezuelano que, como governador de um estado, era acusado de ter causado certo prejuízo, em Venezuela, a um cidadão americano.
Contra todas as leis, este general foi preso a pedido do americano e sujeito em processo por um ato de governo praticado na sua pátria!
Não há nação latino-americana que não tenha sofrido das suas relações com os Estados Unidos.
Demonstrado isto, voltemos de novo a falar do que têm sido as relações entre o Brasil e os Estados Unidos.



II


Já mostrámos, de passagem, a frieza com que no século passado Jefferson acolheu a idéia da independência do Brasil, e o procedimento indigno do governo de Washington denunciando ao governo português as aberturas dos revoltosos de Pernambuco em 1817. Vimos a demora no reconhecimento da nossa independência, vimos o ministro americano no Rio fazendo causa comum com a violência do governo de Carlos X contra o Brasil e, de passagem, aludimos às intrigas americanas em favor de Lopez e contra o Brasil, a República Argentina e o Uruguai.
Nesses conflitos, porém, o amor próprio brasileiro sempre saiu vencedor, porque de um lado estava a integridade dos nossos homens de estado, e do outro a diplomacia flibusteira e gananciosa dos Estados Unidos. O ministro americano Washburn, que tanto intrigou contra o Brasil no acampamento paraguaio, traiu por fim os seus amigos Lopez e madame Lynch, que o acusavam de ter desencaminhado valores que lhe haviam confiado em depósito.
Washburn escreveu um livro, que é a sua condenação(37), e, ao mesmo tempo, a prova de que aquele diplomata americano, como todos aqueles com quem nos encontrarmos neste trabalho, votaram aversão especial ao Brasil. Da própria narrativa de Washburn (vol. II, pag. 180) tira-se a prova da veracidade da acusação de espionagem que era feita contra ele.
Adiante (pag. 558) confessa que os valores lhe foram realmente entregues por madame Lynch, que estiveram na sua casa guardados, mas que ele, Washburn, ignora o seu paradeiro, supondo que foram enterrados algures (!).
O exército brasileiro e a armada são cobertos de ridículo e de calúnias pelo ministro americano.
A batalha de Riachuelo é descrita como uma coisa vergonhosa para nós (pag. 10, vol. II), e Caxias é vilipendiado.
As indelicadezas, as incorreções, as faltas de Washburn foram tão graves, que os oficiais da marinha americana que se achavam no Paraguai, romperam com ele. Washburn ataca-os com violência, qualificando de “perversa e de anti-patriótica” a atitude dos oficiais superiores, seus compatriotas (pag. 467, vol. II).
Depois de Washburn veio Mac-Mahon, cuja amizade pelo ménage Lopez-Lynch foi sempre firme. Mac-Mahon e Washburn dizem-se coisas bem desagradáveis nos seus escritos posteriores. Só estão de acordo nas injúrias contra os brasileiros.
Esta polêmica fez escândalo nos Estados Unidos, e o governo abriu um inquérito em que figuravam Washburn, Mac-Mahon, os oficiais Davis, Kirkland, Ramsey e dois aventureiros Bliss e Masterman. Toda a gente injuriou-se no inquérito, fizeram-se graves acusações uns aos outros, sendo uma verdadeira vergonha aquela lavagem oficial de roupa suja, aquela briga de ministros com almirantes, de almirantes com ministros, etc.(38)
Durante a guerra do Paraguai o ministro americano general Mac-Mahon, em desprezo de todos os usos internacionais, escrevia para os jornais americanos(39) artigos difamatórios dos aliados. Dizia: Que Lopez era inocente das crueldades que caluniosamente lhe imputavam os aliados, que as centenas de mortes atribuídas a Lopez tinham sido perpetradas pelos brasileiros, enquanto os paraguaios trabalhavam nas trincheiras(40); que o povo brasileiro era fraco e efeminado(41); que o seu exército (a cuja cobardia o diplomata americano constantemente alude) era composto de escravos e galés(42); que a “honra nacional” como nós a entendemos na zona tórrida é coisa bem diversa da honra nacional americana, etc. etc.
Entretanto os fatos eram os fatos, e, sendo inegáveis as vitórias brasileiras, o americano nosso inimigo explicava o sucesso das armas brasileiras pela seguinte forma:
“D. Pedro, no modo por que tem dirigido a guerra, dá a melhor prova da sua extraordinária habilidade; é um rei sábio e perfeito. E além disso, está cercado de conselheiros que, se tivessem a honestidade comum que só a nossa raça saxônia dá aos indivíduos como aos governos (!), poderiam ser colocados ao par dos primeiros estadistas do nosso tempo. Isto dá grande força à diplomacia do Brasil, enquanto que a habilidade dos seus financeiros tem-lhe permitido o manter ileso o seu crédito.”
Washburn teve várias conferências com o general em chefe do exército aliado, o marquês de Caxias, e diz cinicamente que, em troco de uma grande quantia, Lopez devia aceitar a paz nas condições que o Brasil queria. Nos arquivos do ministério da guerra, no Rio de Janeiro, há ofícios do marquês de Caxias bem pouco honrosos para Washburn(43).
Não foi só pela corrupção que a diplomacia norte-americana se distinguiu. Falamos já da violação do território marítimo do Brasil por um navio de guerra americano. Vejamos as particularidades do fato.
No mês de outubro de 1864, o vapor confederado Florida e o navio federal Wachusset achavam-se ancorados no porto da Bahia. O primeiro desses navios, que tinha entrado no porto para consertar as suas avarias e para tomar víveres, recebeu a ordem, que executou, de se colocar ao lado da corveta brasileira Dona Januária. Na manhã do dia 7 de Outubro, o navio federal americano deixou o seu ancoradouro e aproximou-se do Florida. Ao passar pela proa da corveta brasileira, recebeu ordem de voltar para o seu ancoradouro. Esta ordem foi desobedecida e, momentos depois, ouviam-se tiros trocados entre os dois navios americanos. O comandante brasileiro mandou um oficiai a bordo do Wachusset, e o comandante deste vaso de guerra prometeu ao oficial nada tentar contra o Florida. Faltando indignamente à sua promessa, o comandante americano tomou repentinamente a reboque o Florida e foi saindo com ele fora do porto sem dar tempo ao navio brasileiro, que confiara na palavra de um militar, de opor-se ao atentado. O que aumenta ainda a revoltante deslealdade é que o cônsul americano na Bahia tinha dado sua palavra de honra às autoridades brasileiras de que o Wachusset respeitaria a neutralidade do território do Brasil e, na ocasião em que o atentado foi cometido, o cônsul estava a bordo do Wachusset. O comandante do Florida, confiando na neutralidade do Brasil e na palavra, do comandante americano, tinha deixado desembarcar quase toda a sua marinhagem e, aproveitando-se disso, o Wachusset traiçoeiramente o atacou.
O governo de Washington deu todas as satisfações possíveis ao Brasil, mas cometeu a indelicadeza final de mandar pôr a pique o Florida no porto de Hampton Roads, para não entregá-lo ao Brasil, e depois disse oficialmente, que um incidente imprevisto tinha causado a perda do Florida.
Outro fato:
Em 1842 a barca peruana Carolina, em conseqüência de grossas avarias, arribou ao porto de Santa Catarina. Não havia ali cônsul peruano, e as autoridades nomearam uma comissão de exame que condenou o navio, o qual por isso foi vendido de conformidade com as leis comerciais brasileiras.
O navio estava seguro em Nova York e em Philadelfia, e as companhias acionaram perante os tribunais do Brasil o capitão americano, acusando-o de ter obtido por fraude a condenação. A condenação foi revogada e a venda anulada, mas, o capitão tinha desaparecido com o dinheiro.
Um certo Wells, antigo cônsul americano demitido por indelicadezas no exercício do seu emprego, comprou os direitos das companhias de seguros e intentou uma ação contra o governo do Brasil. O governo americano transmitiu a reclamação ao ministro dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, mas o governo brasileiro, com toda a razão, recusou-se a pagar, e o governo americano, que então lutava com as dificuldades da guerra civil, recomendou até ao seu ministro que não levasse as coisas por diante. Era ministro americano no Rio o sr. Webb, que por essa ocasião reconheceu a injustiça da reclamação.
Ora em 1867 o sr. Webb mudou de opinião e, depois de se ter encontrado com Wells, nos Estados Unidos, o ministro começou a fazer exigências, e no momento em que ia sair um paquete para a Europa o sr. Webb ameaçou romper as suas relações diplomáticas com o governo do Brasil se este não pagasse. O governo arcava então com as grandes dificuldades da guerra do Paraguai e temeu o mau efeito que produziria na Europa a notícia de um rompimento com os Estados Unidos. Pagou, mas debaixo de protesto, a quantia de £14:252 ao câmbio de 16, taxa que naquela época se considerava desastrosa, porque ainda não se tinham visto os câmbios de 10, de 9, e de 8 3/4 que fazem hoje a glória das finanças republicanas.
Em 1872, o ministro do Brasil em Washington, sr. Carvalho Borges, solicitou da Secretaria d’Estado um novo exame da questão, e o advogado do governo americano opinou que o Brasil tinha sido vítima de uma extorsão, e que a quantia lhe devia ser restituída com os respectivos juros.
De conformidade com esse parecer, o governo americano mandou entregar à legação brasileira a quantia de £5:000. Faltavam pois £9:252 que a legação reclamou, pois Webb tinha recebido £14:252, conforme mostrou com recibo do próprio Webb. Este diplomata tinha desviado, pois, £9:252, de cujo paradeiro não pôde dar conta. Só em 1874 é que finalmente o governo de Washington reembolsou o Brasil da quantia total(44).
Não foi esta a única reclamação de dinheiro que, com mais violência que razão, nos fizeram os americanos, além das reclamações de Raguet e Tudor.
Em 1849, o governo brasileiro viu-se constrangido a ceder a uma nova e importante reclamação feita então pelo ministro americano David Tod. Adiante veremos a justiça e moralidade dessa reclamação. O fato, porém, é que a 20 de janeiro de 1850 foi ratificada uma convenção americano-brasileira pela qual o Brasil pagava aos Estados Unidos quinhentos e trinta contos (530:000$000 réis) que o governo americano distribuiria entre os reclamantes.
David Tod exultou. A 23 de agosto de 1840 escrevera ao seu governo: “Quanto mais examino este assunto e reflito sobre ele mais me convenço de que este negócio foi muito satisfatório e a quantia recebida muito suficiente para serem pagos todos os reclamantes”. Tod, porém, órgão dos reclamantes negociantes americanos do Rio, insistia para que a distribuição fosse feita no Rio e não em Washington debaixo das vistas do governo americano(45).
O ministro Tod e os americanos do Rio não conseguiram, porém, que o comissário encarregado de distribuir esse dinheiro viesse fazer este trabalho ao Rio de Janeiro. O governo americano nomeou para essa comissão o sr. Geo. P. Fisher, e o relatório deste funcionário é curiosíssimo. Desse relatório vê-se que os reclamantes americanos, em regra, não podiam apresentar prova nenhuma dos seus direitos, que eram na maior parte fantásticos.
Depois de, durante dois anos, ouvir todas as reclamações o comissário Geo. P. Fisher dizia: “A quantia paga pelo governo do Brasil, em virtude da convenção de 1849, foi de 500:000$000 réis que perfizeram 300:000 dólares.
“Ora, pagas as quantias que já foram atribuídas e as quantias reclamadas restará um saldo de 130:000 a 150:000 dólares, isto é, mais ou menos, metade do que o Brasil pagou.
“Acho que o nosso governo vai ficar em posição esquerda em relação ao governo do Brasil, que terá razão de se queixar da injustiça que sofreu”(46)
Este documento, melhor do que qualquer outra demonstração, prova a cônscia má fé com que foram feitas as reclamações norte-americanas.

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Nos países sul-americanos, e alguns há onde, apesar das revoluções, os cargos de ministro são ocupados por homens instruídos e conhecedores da história diplomática, há uma grande prevenção contra a política absorvente, invasora e tirânica da diplomacia norte-americana. A última vez que foi ministro de negócios estrangeiros do Brasil o visconde de Abaeté, este estadista teve notícia de que se tramava em Nova York uma expedição de flibusteiros contra o Pará e o Amazonas e, se a legação brasileira em Washington não contrariasse ativamente a conspiração, talvez chegasse a se reproduzir no vale do Amazonas um novo atentado, igual ao da expedição do pirata Walker contra a América Central.
Estas pretensões americanas sobre o Amazonas tornaram-se então ameaçadoras. Em seguida à exploração feita no grande rio pelo tenente Herndon, da marinha americana (que aconselhara aos brasileiros o uso da forca para os índios, em vez da catequese)(47) começou a agitação americana a propósito do Amazonas.
Foram despachados agentes diplomáticos para o Peru e para a Bolívia, com o fim de levantarem os governos daqueles países contra o Brasil e de os aconselharem a pedir o auxílio dos Estados Unidos.
O célebre geógrafo e meteorologista americano Maury escreveu um violento panfleto contra o Brasil(48) que foi vitoriosamente respondido por De Angelis(49). Falava Maury, não na conveniência que o Brasil teria com a abertura do Amazonas à navegação, mas no direito dos Estados Unidos de nos forçarem a isso.
As intrigas americanas não foram bem recebidas no Peru, mas a Bolívia hesitou um pouco, e tanto bastou para começar nos Estados Unidos a conspiração flibusteira a que aludimos.
Preparava-se evidentemente uma invasão armada do Amazonas quando o ministro do Brasil em Washington interpelou numa nota positiva o governo americano, perguntando-lhe se seria permitida tal pirataria.
O Secretário d’Estado, respondendo ao ministro(50) que tão oportuna e energicamente reclamava pelos interesses do Brasil, respondeu por duas vezes(51) que “os funcionários da União, com conhecimento de causa, não facilitariam a partida de nenhum navio que fosse violar as leis do Brasil”, e que, “a empresa que tivesse por fim forçar a entrada do rio seria ilegal e implicaria violação dos direitos do Brasil, e que, se algum cidadão da União tivesse a temeridade de intentá-la, sobre ele cairia o rigor da lei”.
Declarações igualmente categóricas tinha já feito o governo americano ao México em relação ao Texas, e devia mais tarde fazê-las à América Central, e estas declarações não impediram os atentados que conhecemos.
O governo do Brasil não diminuiu a sua vigilância, denunciou mais de uma conspiração planeada por Maury, oficial da marinha americana e funcionário público, e por seus companheiros. Uma vez esteve aparelhada uma expedição, e só à última hora foi detida em Sandy Hook à saída do porto de Nova York.
Todos estes americanos, nos seus escritos, falavam muito dos interesses comerciais dos Estados Unidos nos seus capitais imensos que estavam ansiosos por um emprego no Amazonas. Chegou o momento das circunstâncias da política permitirem a decretação da liberdade da navegação, e não apareceram os tais capitais americanos. Os magníficos vapores que hoje sulcam o* Amazonas são os de uma companhia inglesa que tem sido o maior propulsor do progresso e do enriquecimento da região amazônica. Isto, porém, não quer dizer que os americanos não tenham mais vistas sobre o grande rio sul-americano.
O general Grant, num discurso pronunciado em 1883, numa recepção ao general mexicano Porfirio Diaz, chegou a dizer que os Estados Unidos necessitavam de três coisas somente, porque o resto tudo tinham no seu país. As três coisas eram: café, açúcar e borracha. E o general disse: Seja como for havemos de ter café, açúcar e borracha.
O general acentuou bem a frase Seja como for (by any means), e no México esta frase foi tomada quase como uma ameaça. O problema do açúcar estava até certo ponto resolvido pela absorção das ilhas Havaí, que, embora não admitidas na União americana, estão, para todos os fins práticos, como que anexadas aos Estados Unidos.
O café, julgava o general Grant que viria com o México;
A borracha, para tê-la, é preciso ter o Amazonas.
No Havaí a usurpação americana foi simples e rápida. A raça indígena, isto é, perto de um milhão de habitantes, raça que tem a brandura de índole própria de todo os polinésios, havia perto de um século que ia sendo educada por missionários de várias nações, e tinha chegado já a um grau de civilização que lhe permitiu o constituir um governo regular. Há no arquipélago uns quinhentos americanos e uns seis ou oito mil portugueses. Pois bem, os americanos, auxiliados por um vaso de guerra do seu país, expèliram do governo os indígenas, e, fazendo desembarcar tropa, tomaram conta de todo o país, excluindo inteiramente os havaianos de toda a administração de sua terra. Os governantes americanos impostos pelas baionetas, decretaram a federação com os Estados Unidos tal qual queriam talvez os insensatos brasileiros que em 1834 apresentaram um projeto análogo na Câmara dos Deputados. O congresso de Washington não quis a anexação do Havaí, mas ficou aquele país sempre governado pelos americanos. Esta grande e clamorosa iniqüidade, este abuso da força, não encontra justificativa.
Os empregados públicos e jornalistas oficiais e oficiosos que escrevem no Brasil, dizem-se muito entusiasmados pela amizade dos Estados Unidos, e facilmente conseguirão talvez iludir a boa fé dos brasileiros.
A política internacional dos Estados Unidos é egoística, arrogante às vezes, outras vezes submissa, segundo os interesses da ocasião. E, em todo o caso, ela nunca se deixa guiar por sentimentalismos de forma de governo.
Durante a guerra franco-prussiana, depois de 4 de setembro, isto é, depois da proclamação da república, quando a França continuava a arcar com o inimigo alemão, os Estados Unidos manifestaram, por todas as formas, as suas simpatias pelo império teutônico contra a república latina. A realeza e a aristocracia européias têm um imenso prestígio nos Estados Unidos. Toda a ambição da enorme colônia americana na Europa é aproximar-se das cortes. Não há família americana de alguma fortuna que não tenha, nos seus pratos ou nas suas colheres, algum brasão, um mote nobiliárquico, um elmo ou qualquer outra coisa heráldica. É com desvanecimento que elas querem, à força, ligar os seus apelidos obscuros aos nomes fidalgos do Reino Unido, pretendendo sempre descender da nobreza. O livro da nobreza inglesa Burke’s Peerage and Baronetage é sabido de cor pelas senhoras americanas, cuja maior ambição é sempre casar com fidalgos europeus, ir viver na Europa, deixando o velho Uncle Sam, lá do outro lado do Atlântico.
Essa tendência admirativa em relação a todos os ouropéis* da realeza provém, de certo, de que, a muitos respeitos, os Estados Unidos são ainda uma colônia. A civilização vem-lhe da Europa, e por isso o americano, desde o mais rude até ao homem mais eminente, pergunta sempre ao estrangeiro: Então o que acha deste país? Tal qual como o parvenu enriquecido gosta de mostrar a sua casa, os seus carros, ao homem de boa sociedade e, dando a beber ao gentleman elegante os seus vinhos preciosos, pergunta-lhe com insistência: Então, que tal acha?
Ora, as americanas entendem que o fidalgo é mais competente em matéria de elegância e de apuro social do que qualquer outro individuo. Daí a preferência das americanas pelas nações aristocráticas da Europa. Isto quanto aos indivíduos. Quanto ao governo, também não há dúvida que os Estados Unidos são mais amigos de Inglaterra e da Alemanha, apesar da França ser república.
E esta preferência pela Alemanha, por parte do governo americano, chegou até à brutalidade por ocasião da guerra franco-prussiana. O ministro americano em Berlim, Bancroft, homem ilustre por seu saber, o que é raríssimo entre a diplomacia americana, que é ordinariamente a escória da politicagem, privava com o Imperador Gruilherme e com Bismarck, e a sua atitude foi sem generosidade e sem tato. Acompanhou o Rei da Prússia em campanha, e os seus despachos para Washington, publicados pouco depois, eram insultuosos para a França. Girando ao redor das negociações de armistícios e de paz, foi sempre um servidor zeloso da Alemanha. O general americano Sheridan julgou-se talvez muito honrado com ser admitido como ajudante de ordens do príncipe Frederico Carlos, e tomou parte em toda a campanha, prestando bons serviços ao exército alemão. Sheridan era um americano notável, um ilustre general, e com ele serviram contra a república francesa grande número de oficiais norte-americanos. E o general Grant? Esse era presidente dos Estados Unidos, e numa mensagem ao congresso americano em 1870, felicitou a Alemanha pelas suas vitórias, e mostrou-se jubiloso com a derrota da França.
Foi a 7 de fevereiro de 1871, isto é, seis meses depois da queda de Napoleão III, contra quem o governo americano podia ter ressentimentos em razão da guerra mexicana foi seis meses depois da proclamação da república em França, que o presidente Grant expediu a sua célebre mensagem ao Congresso, mensagem insultuosa para a França, e em que exaltava o governo livre da Alemanha e aprovava a guerra de 1870, e a conseqüente anexação da Alsácia e da Lorena. Dias depois, Grant, recebendo o ministro da Alemanha, disse-lhe que o governo americano não podia deixar de simpatizar com a Alemanha na luta que ela acabava de sustentar, e por esse tempo Bancroft escrevia a Bismarck felicitando-o pela sua obra “destinada” dizia o americano “a rejuvenescer a Europa”. Todas estas baixezas que tinham um mesquinho fim eleitoral, isto é, ganhar os votos dos alemães nos Estados Unidos, ficaram imortalizadas por Victor Hugo, que perguntava:
Est-ce donc pour cela que vint sur sa frégate
Lafayete donant la main à Rochambeau?(52)
Esta inqualificável grosseria, esta quebra dos usos da mais comezinha urbanidade entre as nações, esta falta de generosidade, envergonharia decerto a sombra dos grandes homens que fundaram os Estados Unidos, que fizeram a sua independência com o auxílio da França, e que junto aos muros de Yorktown foram os companheiros de Lafayete e de Rochambeau. Quando, anos depois, o general Grant fez uma viagem ao redor do mundo, quis em Paris apartar-se um pouco do que aconselha o Bædeker, guia dos viajantes, e desejou ver Victor Hugo. Sem dúvida havia chegado aos ouvidos de Grant o nome do poeta das “Orientais”, embora, ignorante como era o general, de certo nunca tivesse lido um só verso do vate imortal. Mandou pedir uma audiência. Foi terrível a cólera do velho Hugo. Em termos violentos, disse ao enviado de Grant, que nunca receberia semelhante miserável alarve (um tel goujat). Este episódio da vida de Victor Hugo é bem diferente da convivência do Imperador do Brasil com o autor de Notre Dame de Paris.
Outro fato:
Em 1891 (o caso foi publicado e discutido), o capitão Borup, adido naval dos Estados Unidos em Paris, foi surpreendido em flagrante espionagem feita a favor da Alemanha. Ficou verificado que documentos que este diplomata americano solicitou para o seu governo do ministério da guerra francês ela os comunicou traiçoeiramente à Alemanha.

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Em 1883, falecendo nos Estados Unidos o chefe socialista alemão, Lasker, o congresso de Washington, no mesmo ano em que eram presos e enforcados os socialistas de Chicago, mandou uma mensagem de pêsames pela morte de Lasker, ao Reichstag alemão, e nessa mensagem elogiavam-se as idéias e os serviços do socialista. O Congresso achava muito bons na Alemanha os mesmos princípios que o governo americano perseguia no seu território.
O governo alemão devolveu a mensagem estranhando-a, o que não deixou de envergonhar os seus autores.
Por essa época, havia o célebre conflito entre os Estados Unidos e a Alemanha, porque esta recusava receber a carne de porco infeccionada de triquina que lhe vinha da América, e Bismarck declarou que não trataria mais com um tal Mr. Sargent, ministro americano em Berlim, que se tinha mostrado incorreto e inconveniente. A moralidade de tudo isto é que a subserviência do governo americano à Alemanha em 1870-1871 não conquistou a estima do governo do Imperador Guilherme.
Não foi somente naquela época que houve americanos entusiastas pelo vencedor e pelo mais forte. Na guerra da China, em 1859, uma esquadra americana, neutra, pois a expedição contra a China era anglo-francesa, estava ancorada no Peiho, quando a 25 de junho daquele ano, houve combate entre os beligerantes. Inesperadamente, sem motivo nem aviso, os navios neutros americanos, ao mando do comodore Tattnal, romperam fogo contra os chins. Esta deslealdade não teve outro motivo se não o desejo de figurar, foi um sport. É verdade que, com os chins, não fazem os americanos grandes cerimônias. Os pobres chins, são linchados nos Estados Unidos sem nenhuma forma de processo, sendo até às vezes queimados vivos. Nem com eles há respeito pela fé internacional. Os Estados Unidos obtiveram da China um tratado de amizade, comércio e navegação, em virtude do qual era livre a entrada e saída dos chins e dos americanos, reciprocamente nos dois países. Pois, não obstante a solenidade desse compromisso nacional, o congresso americano votou uma lei proibindo a entrada dos chins nos Estados Unidos. Não teria mais audácia na quebra da palavra da nação, a mais maquiavélica chancelaria carunchosa da Europa decrépita.
A política americana, em relação aos índios que ela ainda não acabou de exterminar, é uma política de ferocidade inacreditável neste final do século XIX. Os documentos oficiais que se referem à administração dos índios são trágicos(53).
Os inquéritos sucessivos têm demonstrado que o roubo é a regra, quase sem exceção, no trato do governo americano com os índios. O governo falta com cinismo à fé dos tratados, mata os índios a fome e a tiro, rouba-lhes as terras, onde os instala. Os empregados na administração dos índios são de uma desonestidade proverbial nos Estados Unidos. Não há uma voz que conteste isto, e há muitos livros americanos em que as particularidades desta longa campanha de sangue, de morticínio, de roubo e de incêndio vêm miudamente narradas*(54).
A história dos tratados dos Estados Unidos com os países do Extremo Oriente está cheia de imposições violentas, de trapaças e de atos de má fé. Os americanos têm sido na China os maiores contrabandistas de ópio, e é péssima a sua reputação. Em 1828 o governo chin expediu um decreto especial contra as fraudes norte-americanas. Esse decreto foi a resposta dada a uma súplica dos negociantes americanos de Cantão. Vejamos o tom em que aqueles orgulhosos republicanos se dirigiam ao vice-rei de Cantão:
“Prostrados”, diziam eles, “prostrados aos pés de v. exa. suplicamos-lhe que se digne lançar as suas vistas sobre nós, e estender até nós a sua compaixão ..”(55)
“Não há melhor prova da exageração das reclamações americanas contra a China, diz o americano James A. Whitney(56), do que o fato da soma que a China nos pagou ultrapassar as exigências dos reclamantes ao ponto de um grande saldo estar ainda no tesouro americano sem haver quem o reclame. E é preciso lembrar”, continua o mesmo autor, “que as reclamações originaram-se de prejuízos reais ou supostos que os americanos diziam ter sofrido em 1856, por ocasião do bombardeio de Cantão pelas forças inglesas ou dos trabalhos de defesa então efetuados pelo governo chin. E deve-se lembrar ainda que o nosso próprio governo virtualmente simpatizava com o bombardeio. Dois anos depois, um oficial da nossa esquadra, embora estivéssemos em paz com a China, secundou a ação dos ingleses contra as fortificações da embocadura do Peiho. Cinco anos depois, estando nós ligados à China por um tratado de paz e amizade, dois navios americanos e quatro lanchas quiseram, à força, levantar carta de um canal. Os americanos já estavam preparados para uma recusa por parte dos chins, o que era muito justo e natural. Os chins, opuseram-se, mas os canhões americanos impuseram silêncio às baterias de terra, e alguns dias depois, cinco dos fortes chineses foram arrasados pelos navios americanos, sendo mortos 250 chins.
“Quanto ao perigo que correram as nossas forças, faça-se facilmente uma idéia dele dizendo que perdemos três homens”.
Ao Japão os Estados Unidos extorquiram um tratado, e assim foi nas ilhas Samoa onde os americanos não só aceitaram uma espécie de protetorado ou condomínio conjunto com a Alemanha e a Inglaterra, como tomaram aos indígenas parte da ilha de Tutuila, como depósito de carvão. Assim foi em Sião e em Madagascar, países onde a indústria americana quer introduzir os seus produtos de fancaria, falsificando as marcas, e, a despeito das convenções internacionais, rotulando, como ingleses, os seus algodões inferiores e outros produtos de manufatura disfarçados fraudulentamente.
Tratados de comércio! Eis aí a grande ambição norte-americana, ambição que não é propriamente do povo, mas sim da classe plutocrática, do mundo dos monopolizadores que, não contentes com o mercado interno de que eles têm o monopólio contra o estrangeiro, em virtude das tarifas proibitivas nas alfândegas, em detrimento do pobre que se vê privado de grande benefício que a concorrência universal lhe traria com o forçado abaixamento dos preços. Esta classe plutocrática governa o povo americano com muito mais rigor e tirania do que o Czar da Rússia emprega na suprema direção de seu povo. Ela suga a seiva americana, e, praticamente, pelo poder do ouro, tem privilégios reais e positivos muito maiores do que os da nobreza e do clero na Europa, nos tempos passados. A milionocracia domina os caminhos de ferro, as docas, as fábricas, e, das sobras dos seus proventos, tira com que governar, e subsidiar e converter em seus servos obedientes todos os políticos dos Estados Unidos, país único na história do mundo em que a simples designação de político (politician) tornou-se, com muita e muita razão, uma verdadeira, injúria.
Os plutocratas americanos não se satisfazem já com o mercado nacional que o protecionismo lhes entregou. Nas suas indústrias empregaram eles já capitais enormes que exigem remuneração. Em igualdade de condições, eles não podem concorrer nos mercados do mundo com os produtos manufaturados da Europa. O protecionismo que permitiu nos Estados Unidos a criação das imensas fortunas industriais, trouxe também o encarecimento da vida e, com ele, a elevação dos salários, que já de si seriam mais elevados do que na Europa pela raridade relativa da mão de obra perita e técnica (skilled labour). Sendo os salários mais elevados, o custo da produção é maior do que na Europa, e por isso, na concorrência universal, os Estados Unidos são vencidos pelos produtores europeus.
Sendo assim, a indústria americana sucumbe sob o peso da sua produção exagerada. Daí a crise industrial, agravada pelo desvalor de parte da moeda, a moeda de prata, porque, como já dissemos, até em matéria de cunhagem de moeda, os legisladores americanos, têm querido e têm conseguido, proteger os milionários em detrimento do povo. Como conseguiriam os proprietários das grandes minas de prata vender por bom preço o seu metal, se o valor deste não se mantivesse pelas compras contínuas do tesouro americano que adquiria barras de prata para transformá-las em moedas? Tanta moeda de prata cunhou o tesouro americano que rompeu o equilíbrio do valor entre a moeda de prata e a moeda de ouro. A superabundância rebaixou a prata, encareceu o ouro e o ouro emigrou para o estrangeiro. Moeda desigual e em parte depreciada, eis o que o protecionismo produziu no sistema da circulação monetária dos estados. A estagnação da indústria, proveniente do excesso da produção e da sua incapacidade para concorrer no estrangeiro com os produtos europeus, agrava-se de dia em dia. Há quinze anos, os americanos diziam que no seu país não havia questão social, que os tumultos operários, as lutas e as crises provenientes das dificuldades do proletariado eram males das velhas sociedades européias, que na livre América havia espaço, luz e comida para todos os pobres, sob o regime do trabalho. Hoje, o que é que vemos? A questão operária é mais terrível e mais ameaçadora nos Estados Unidos do que na Europa.
O proletário americano tem uma organização de ataque e de defesa contra a sociedade que na Europa ainda não foi igualada. Parece que, na Europa, a chamada paz armada, com a consciência do perigo que corre a própria existência nacional em vista da hostilidade de vizinhos poderosos, dá ainda a consciência de que é necessária a união para garantir a existência da própria pátria. Nos Estados Unidos, a questão social tem uma gravidade única. Grande parte da massa operária é estrangeira, estando ainda na primeira fase da existência do imigrante, fase intermédia, na qual tendo-se desprendido da pátria antiga ainda não adotou a pátria nova. A massa dos imigrantes é constituída por uma verdadeira seleção de entre os operários dos respectivos países de origem. Seleção de fortes, de enérgicos, de resolutos, pois, o simples ato de emigrar é uma prova de espírito audacioso. Quem não duvidou abandonar a pátria do seu nascimento não tem escrúpulos em perturbar a pátria adotiva. Por isso, nas dificuldades da luta social, o exército operário, nos Estados Unidos, é mais de temer do que na Europa.
A política financeira e econômica dos Estados Unidos produziu, depois de uma notável expansão industrial, uma reação extraordinária. O operário hoje não tem trabalho, ou quando o tem, o patrão não pode remunerar esse trabalho como noutro tempo, embora o operário precise sempre do mesmo dinheiro, porque o preço da vida não baixou.
Sem dúvida, a questão operária é de todos os países e o problema da riqueza e da pobreza é tão antigo como o mundo. Todas as soluções desse problema são soluções muito relativas e sempre provisórias.
A antiguidade tinha a escravidão, que é um modo de dar uma certa estabilidade e organização ao proletariado coagindo-o a trabalhar e obedecer. O cristianismo acalmou as revoltas da miséria humana quando exacerbada pela pobreza, prometendo o céu e a felicidade futura e fazendo do próprio sofrimento um título à ventura eterna. A sociedade pagã apelava para a força material dominando materialmente o proletário; a sociedade cristã prendia-o pelas cadeias, ainda mais fortes, da esperança e da fé. O espírito moderno suprimiu a escravidão e deixou de falar no céu. O operário foi abandonado, e a ciência não encontrou ainda uma fórmula que substituísse a escravidão da antiguidade ou a crença na outra vida que o cristianismo infundia.
Nos Estados Unidos, a agitação operária é mais grave do que na Europa, porque o operário não tem nenhuma das peias materiais e não tem os incentivos morais que em parte o dominam na Europa e de que ele se acha liberto na América.
As monarquias européias preocupam-se seriamente em melhorar a sorte dos operários. As monarquias têm todo o interesse em adiar e evitar a grande crise do proletariado, porque as dinastias sabem que, numa grande catástrofe social, os tronos desapareceriam(57). Nas repúblicas não há esse interesse de conservação que leva os governantes a querer bem governar por interesse próprio. Na república tudo é transitório; os homens sabem que, quer encham o seu país de benefícios, quer acumulem erros sobre erros e cheguem até ao crime, terão, em certo período de deixar o poder, e, se a república comete faltas graves, mudam-se os homens, continuando sempre a república ainda que seja para repetir as faltas que se procura, em vão, reprimir com a periodicidade das revoluções. A república, bem que seja pessoalíssima quanto à influência dos funcionários, beneficia de uma espécie de impersonalidade que a torna irresponsável. Na gestão dos negócios e dos dinheiros públicos, a monarquia arrisca a sua própria existência; é como que uma firma solidária que responde com a sua pessoa e com a totalidade de seus bens. A república é uma companhia anônima de responsabilidade limitada. E conhecemos países onde o simples nome de companhia é quase sinônimo de desonestidade.
A história demonstra que as repúblicas, uma vez falseadas, nunca se regeneram. Cada forma de governo tem a sua tendência, e tem o seu modo peculiar de resolver os sucessivos problemas da história nacional. Tomemos por exemplo, os Estados Unidos e o Brasil, ambos em frente do mesmo problema: a abolição da escravatura.
Tiveram os Estados Unidos a sua solução genuinamente republicana e norte-americana, isto é, a solução pela violência, pela força, pelo grande fragor da guerra fratricida. Teve o Brasil uma solução genuinamente brasileira e monárquica, a solução que todos vimos, solução que excedeu os sonhos dos otimistas mais humanitários. Porventura deveremos envergonhar-nos da solução que soubemos e pudemos dar ao problema e sentir o não termos imitado os Estados Unidos também nesse ponto? Dissemos que no Brasil o problema escravo teve uma solução monárquica, não só porque a monarquia brasileira teve a glória de ser punida pela sua ação libertadora, como porque desde que o mundo é mundo, nenhuma grande reforma social se realizou, sem ser debaixo da ação de um governo monárquico. Ouçamos um dos mais profundos pensadores do século, Dölinger: “O testemunho da história nos demonstra que a solução das questões sociais, a reforma das instituições, a abolição de abusos tradicionais, realizam-se com mais facilidade e segurança num governo monárquico, do que numa república. Quando a corrupção da república romana chegou aos seus extremos limites, todos os romanos inteligentes admitiram a impossibilidade da república reformar-se a si mesma e a inevitável necessidade da monarquia. O mesmo aconteceu com a república polaca e com a república francesa no tempo do diretório.
“Se os Estados Unidos, em 1862, tivessem um monarca em vez de um presidente eleito por poucos anos, certamente lhes teria sido possível dirigir o problema servil para uma solução pacífica, evitando uma sangrenta guerra civil, cujos efeitos ainda perduram.”(58) Isto dizia o ilustre pensador em 1880, e oito anos depois os fatos vieram dar-lhe razão, porque o único país monárquico da América foi também o único país que pacificamente extinguiu a escravidão.
O seu destino manifesto, o seu natural instinto de conservação leva as monarquias a procurarem resolver os problemas sociais, enquanto que as oligarquias republicanas temem esses problemas e adiam-lhes indefinidamente as soluções.
E é por isso que vemos as monarquias européias, compreendendo o perigo e o encargo da sua responsabilidade, encarando de frente o problema do proletariado que, nos Estados Unidos, é desleixado pelos poderes públicos. Na Europa há, na velha tradição monárquica, a remota lembrança da antiga aliança da realeza com os burgueses contra os senhores feudais, que eram os opressores dos fracos. Hoje, os opressores são os burgueses que confiscaram em seu proveito todas as chamadas conquistas da revolução de 1789. O capitalismo semita ou não semita, goza hoje de privilégios reais e efetivos muito mais vexatórios do que os privilégios antigos da nobreza e do clero. No antigo regime, a nobreza pouco a pouco ia-se enfraquecendo, e o terceiro estado ia-se fortalecendo. Na vida moderna o capital cresce por si mesmo, cada vez mais se avoluma, e é fora de dúvida que a fatalidade faz com que os ricos fiquem cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. A forma republicana burguesa, como existe em França e nos Estados Unidos é a que mais protege os abusos do capitalismo. Há como que uma repercussão de antigas eras, nos tempos de hoje, quando vemos de um lado a ferocidade burguesa contra o proletário, abroquelando-se em leis protecionistas, em monopólios industriais, e falando a todo o momento em princípio da autoridade, em direito da legalidade, em obediência(59).
Do outro lado vemos o representante das velhas tradições do Santo Império Romano e o Papa, procurando estender a mão aos operários, que afinal são a força, são o número, são a justiça e serão o poder de* amanhã. O Papa e o Imperador, com a compreensão superior que lhes dá a fé nos seus destinos, estão vendo que novos tempos de renovação social se aproximam, e que é preciso, na imensa Bastilha em que a burguesia revolucionária encarcerou o proletariado, rasgar uma janela para o azul. A aliança da Igreja e do Império com a multidão infeliz contra a burguesia gozadora que se diz republicana ou pelo menos democrática, é o grande fato do findar deste século. A Alemanha preocupa-se com a sorte dos operários; Bismarck fez votar a célebre lei garantindo a velhice e a invalidez do trabalhador; o socialismo penetrou nas altas esferas do governo inglês, e ele já existe de fato na grande democracia russa consagrado em usos e instituições seculares. Ainda há muito por fazer, mas as grandes monarquias deram o sinal, e este foi principalmente o congresso europeu que o Imperador Guilherme II forçou a se reunir em Berlim para estudar os meios de melhorar a sorte dos proletários. O movimento está iniciado; onde ele encontra mais resistência é em França, baluarte da burguesia republicana, e nos países latinos que mais ou menos se inspiram do espírito francês. A lgreja patrocina o socialismo cristão, e não o faz somente por palavras. Por um instinto admirável, o proletariado inglês compreendeu que nada podia esperar da sua Igreja oficial, e na grande crise de 1890, o seu arauto, o seu chefe, o juiz da sua causa, o seu paladino, foi o velho cardeal Manning, que reconciliou patrões e operários, feito digno dos tempos heróicos da Igreja. Nos Estados Unidos e na Austrália há a aliança tácita da Igreja e do proletariado. Vejam-se os esforços do cardeal Gibbons e de Monsenhor Ireland, e admire-se como o movimento operário nos Estados Unidos ganhou em grandeza com o influxo da Igreja.
A classe dos donos de caminhos de ferro, dos monopolistas e dos industriais que a ferocidade do protecionismo enriqueceu em detrimento do conforto e do bem estar do pobre, armam-se, nos Estados Unidos, de grandes recursos para a batalha suprema que têm de travar, mais dia menos dia, com o povo americano. O governo e os políticos de Washington são os representantes diretamente interessados ou indiretamente subsidiados que hão de procurar por todos os meios proteger os ricos e os satisfeitos contra os famintos. Os financeiros e os monopolistas americanos votam ódio à Europa, porque para lá se escoou o ouro americano, e porque na Europa os governos estão dando o exemplo da defesa das classes operárias. O defensor desses monopolistas, mais conhecidos, é o sr. Andrew Carnegie, um escocês prodigiosamente enriquecido nos Estados Unidos, e que, no fim da vida, figura em todas as manifestações anti-européias ou antes anti-liberais que se dão nos Estados Unidos. O sr. Carnegie é dono de umas fundições gigantescas e autor de uns livros em que exalta o capitalismo, a felicidade da riqueza e a superioridade dos Estados Unidos, país que ele apresenta como o primeiro do mundo. O mais conhecido dos livros do sr. Carnegie chama-se a Democracia triunfante, livro ricamente impresso que na primeira página traz uma coroa real invertida e um ceptro quebrado para indicar a vitória da democracia. O livro é mal escrito, é insolente e, para dar uma idéia do seu modo de argumentar, diremos apenas que, querendo provar a superioridade artística dos Estados Unidos sobre a Europa, ele diz que as salas de espetáculo são maiores em Denver e em Cincinnati do que em Paris e Londres. No mais, o sr. Carnegie entoa um hino entusiasta à felicidade do povo americano, cuja existência, segundo o autor, é um idílio sem fim. O sr. Carnegie fala do bem estar do operário americano, da sua casinha risonha à beira de campos sempre verdes e de águas murmurantes e, em raptos bíblicos, quase que diz que os rios são de leite e de mel. Ora, a ser isso verdade, que paraíso não devia ser o estabelecimento industrial do sr. Carnegie, as célebres fundições de Homestead? Pois bem! Em 1891 rompeu em Homestead uma grève terrível, provocada, como depois demonstrou o inquérito oficial, pela dureza do proprietário que, do infeliz operário, exigia um horrível máximo de trabalho a troco de um mínimo ridículo de salário. Não parou aí o patriarcal e idílico sr. Carnegie. Nos Estados Unidos, a polícia consente que existam grandes e poderosas agências que se encarregam de fazer a polícia por conta dos particulares, e são muitas vezes empregadas em obras de vingança e de evidente criminalidade. A mais conhecida destas agências, a agência Pinkerton, organizou por conta de Carnegie um verdadeiro exército de detectives, armados de revólveres e de carabinas, destinados a reprimir os operários revoltados, verdadeiros bravi como os da Itália medieval ou antes capangas, como diríamos no Brasil. Os Pinkertons entraram em guerra com os operários, houve grandes tiroteios, muitas mortes, ataques por terra e por água, assédios, uma verdadeira guerra. A imprensa indignou-se e exigiu explicações do governo, de como deixava haver no seu território uma verdadeira guerra sem intervir a autoridade, e verberou o escândalo de se consentir que um milionário pudesse ter assim tropas organizadas ao seu serviço. Onde iria parar, perguntavam os jornais, este abuso? Os Pinkertons foram algumas vezes batidos e noutras trucidaram sem piedade os operários que tinham a felicidade de viver na livre América, tendo como patrão o intransigente republicano mr. Carnegie. Apesar do imenso escândalo que produziu na opinião pública americana a carnificina de Homestead, as tropas federais e do Estado respectivo mantiveram-se inertes. Quanto a Carnegie, logo aos primeiros sinais do tumulto, refugiou-se na velha, na tirânica Europa, porque, alvo do justo ódio dos operários e incurso nas leis penais, a permanência na tal Democracia Triunfante poderia ser-lhe desagradável. Com o governo e com os tribunais Carnegie, na sua qualidade de milionário, muito facilmente se arranjaria. Não tinha sido ele o grande protetor eleitoral do presidente Harrison? Com os operários, a coisa era mais difícil, e o apologista* da democracia plutocrática deixou-se ficar tranqüilamente na Europa.
Este episódio de Homestead, nós o mencionamos porque é típico e cheio de revelações para o futuro da América republicana. O poder do milionário não encontra nos Estados Unidos nenhum corretivo eficaz nas leis ou na ação da autoridade pública. Tudo lhe é lícito, tudo lhe é possível. Isto entrou tanto na consciência nacional que os homens mais cultos do país, os seus escritores, os seus sábios, os seus poetas, os seus filantropos, evitam todo o contato com a política, porque sabem que as posições políticas são dadas a homens subservientes, pelos magnatas da finança. Noutros países do continente, os homens de valor desdenham ser políticos, porque não querem ser títeres irresponsáveis nas mãos do militarismo. Em todo o caso o resultado é o mesmo, porque, quer tenha de ser servidor dos financeiros, quer tenha de ser o instrumento dos militares, o homem público perde, com a sua dignidade a sua independência. Eis aí a situação do político na América.
O milionário empregara até agora a arma poderosíssima da corrupção. O sr. Carnegie foi um inovador; com o dinheiro organizou uma força e com ela bateu os que perturbavam a sua indústria. Isto foi talvez um ensaio. Em pouco tempo, os milionários e bilionários americanos organizarão exércitos. Havendo dinheiro, há meios para se defender qualquer indivíduo, e quem sabe se, no futuro, não haverá nos Estados Unidos guerras individuais como as da idade média? A instituição dos mercenários pode deixar de ser privilégio dos governos que, sentindo-se fracos no interior, procuram no estrangeiro braços para defendê-los e coragem e ambições para sustentá-los. Em breve haverá mercados francos de armamentos e de invenções bélicas; alugar-se-ão por meio de agências, capitães valentes, soldados decididos, que renovarão os feitos das tropas mercenárias de Cartago ou dos suíços e lansquenetes* da Renascença. Quanto custa um general? Por quanto um almirante? Alugar-se-ão Temístocles por mês, Nelsons por empreitada e Napoleões a tanto por dia, com comida.
Os governos que têm chamado mercenários, tarde ou cedo tiveram de se arrepender. A lealdade do mercenário é nula, o o país que lhes cabe defender é muita vez a sua primeira vítima. O estrangeiro chamado para, a qualquer título, tomar parte nas lutas nacionais, torna-se, depois da luta, uma calamidade. O mesmo acontecerá talvez com o capitalismo; os braços que ele tiver armado contra o proletariado se voltarão um dia contra ele. O imaginoso novelista Edmund Boisgilbert, escrevendo no intuito de adivinhar o que vai ser a vida das gerações futuras, no seu romance Cœsar’s Column descreve a grande luta armada que os pensadores vêem como inevitável no porvir norte-americano(60). Nesse livro, vê-se o capital onipotente dominando exércitos e tudo vencendo à força do ouro, que põe ao seu serviço todos os progressos da ciência aplicada, todos os requintes do gozo e todos os meios materiais de destruir e subjugar as multidões. Há contra essa longa tirania uma imensa revolta; o capital defende-se, a mortandade é horrível e a sociedade americana rui com estrondo, numa catástrofe absoluta. A imaginação do literato é grande, mas a invenção do escritor corresponde a um secreto instinto de todos. Hoje, o industrialismo ainda tem algumas esperanças de se salvar e o povo não tem ainda a consciência nítida da sua força. As dificuldades do presente já são, portanto, bastante graves para o capitalismo e a plutocracia americana procura, a todo o transe, sair das suas dificuldades e para isso volta-se para o estrangeiro. É para o estrangeiro que os políticos norte-americanos querem abrir uma válvula para o excesso da produção.
Não é só o fim de lucro monetário imediato que guia esses homens, é uma necessidade absoluta de segurança nacional. Fechados os mercados estrangeiros, como já explicámos, a produção americana terá de se retrair, e retraída, crescerá em enorme proporção o número de operários desempregados, que aumentarão o já tão perigoso exército dos descontentes. Neste empenho de salvação pública, foi uma missão especial de representantes do tesouro americano à Europa, solicitar dos governos europeus a adoção do bimetalismo para dar saída à quantidade de prata que tantos embaraços está criando aos Estados Unidos. A Europa, na conferência de Bruxelas, recusou atender ao pedido. Foi no mesmo intuito, de dar saída a seus produtos e de criar-lhes vantagens especiais nos mercados estrangeiros, que os Estados Unidos quiseram impor tratados de reciprocidade comercial a todos os países da América.
Essa empresa de extorquir tratados dos países latino-americanos a troco de vantagens ilusórias, esteve confiada a Blaine quando ele foi Secretário d’Estado pela segunda vez.



III


Quando o ambicioso estadista voltou ao poder em 1889, com a eleição do presidente Harrison, voltou disposto a tirar a sua desforra do descrédito em que caíra em 1881, quando se descobriu a indelicadeza dos seus processos e dos seus intuitos na intervenção da luta entre o Chile, o Peru e a Bolívia. Em 1884 ele ousara já ser candidato à presidência da república, e isto bastou para um grande número de votos, do seu próprio partido, convergir para o seu adversário o candidato Cleveland, que foi então eleito pela primeira vez. Em 1888 Blaine não fora candidato, mas empregara toda a sua influência em favor de Harrison com a condição de este entregar-lhe a Secretaria d’Estado, de onde Blaine, com o seu extraordinário talento, acharia facilmente o meio de dirigir todo o país. Assim foi. O regime presidencial leva a absurdos dessa ordem; um homem repelido positivamente pelas urnas, pela vontade expressa do eleitorado, basta que ele tenha por si a vontade do presidente para que esse homem tome conta do governo e exerça-o sem haver meio algum de fazê-lo sair enquanto durar o presidente, a não ser por uma revolução. Blaine, pois, assenhoreou-se da Secretaria d’Estado.
Em 1881, um dos pontos do grande plano de Blaine fora a reunião de um congresso pan-americano onde, sob a égide e a proteção dos Estados Unidos, deveriam os representantes de todos os países da América discutir assuntos de interesse recíproco. As revelações conseqüentes à frustrada intervenção no Pacífico desacreditaram completamente os projetos de Blaine, e o primeiro ato do seu sucessor consistiu em expedir aviso às nações convidadas para o congresso, dizendo-lhes que a grande reunião dos representantes de toda a América ficava indefinidamente adiada.
Blaine, voltando ao poder em 1889, trazia um plano de dupla vingança, queria humilhar o Chile e reunir o congresso. Conseguiu as duas coisas. Teve ocasião de lançar, como mostrámos, um ultimatum ao governo chileno, exigindo em prazo dado satisfações e indenizações, e viu reunidos em congresso em Washington debaixo da sua presidência, os representantes de todos os países da América.
A primeira parte do congresso consistiu em banquetes, passeatas, recepções e festas. Os enviados da América latina, pela linguagem da imprensa, pela atitude geral do governo, ficaram logo convencidos de que só o interesse dos Estados Unidos lucraria com o que se pretendia deles no tal Congresso. O governo americano pôs em discussão três pontos: 1.°, a adoção do arbitramento obrigatório para a solução dos conflitos internacionais; 2.°, a celebração de tratados com o governo de Washington estabelecendo uma parcial ou total e recíproca isenção de direitos de importação entre o país contratante e os Estados Unidos; 3.° (este apenas para encher tempo), o estudo de um caminho de ferro dos Estados Unidos à Patagônia, ligando entre si as repúblicas americanas.
A questão do arbitramento não ofereceu grandes dificuldades. Em matéria de promessas, de tratados e de compromissos internacionais as repúblicas da América não são difíceis. O Corpus Diplomaticum sul-americano, isto é, a coleção dos seus tratados, dos seus acordos e das suas convenções, é enorme. Fazem-se, desfazem-se, esquecem-se e violam-se tratados com a maior facilidade. Quase todas as repúblicas concordaram que, no futuro, decidiriam as suas questões por arbitramento. Era um acordo platônico, de bonito efeito, que parecia dar prazer a Blaine e que, em suma, a nada obrigava. O governo chileno, porém, foi mais correto e sincero, e não assinou a cláusula do arbitramento. O presidente do Chile justificou esta recusa perante o congresso do seu país, pronunciando as seguintes palavras:
“Foi também proposta e aceita por alguns representantes do congresso de Washington a arbitragem internacional na forma mais compressiva e obrigatória. Não prestámos assentimento a este projeto, porque o Chile não necessita, para o exercício da sua soberania no mundo civilizado, de outra lei que não seja a lei geral das nações. Os povos, como o nosso, que vivem do seu trabalho, e que cumprem fielmente as suas obrigações e compromissos internacionais, terão de recorrer à arbitragem nos casos especiais e concretos que assim o aconselharem a justiça pública, a prudência e o respeito reciproco dos estados soberanos; julgo, porém, que não nos será licito limitar à arbitragem a ação das gerações futuras para fazer vingar o direito. Só a elas compete apreciar e resolver sobre os meios que a lei internacional lhes faculta para a defesa do seu direito. A restrição dos direitos do estado, por meio da adoção obrigatória de um processo excepcional, como é o da arbitragem, não se coaduna com a liberdade, que, em qualquer eventualidade, desejo reservar aos poderes públicos da minha pátria e aos meus concidadãos.”
Esta é a linguagem de um verdadeiro homem de estado, explicando uma resolução das mais patrióticas e baseada na mais verdadeira compreensão dos direitos e dos deveres internacionais.
O Salvador, Guatemala, Haiti e S. Domingos assinaram a obrigação de recorrer ao arbitramento, mas poucos meses depois houve uma guerra mortífera entre o Salvador e Guatemala e as tropas de S. Domingos e Haiti. Ó fraternidade, ó lealdade americana e republicana! Na parte comercial, as repúblicas hispano-americanas, embora assinassem algumas das conclusões impostas pelos Estados Unidos, não se apressaram em concluir os tratados que os Estados Unidos tanto ambicionavam. O ministro do Chile nos Estados Unidos, num banquete que lhe foi oferecido em Chicago, teve a franqueza de declarar que, em vista das exigências do governo norte-americano, o Chile tinha de continuar a ter só em vista a Europa, e a trabalhar por estreitar cada vez mais as suas relações com o velho mundo.
A república brasileira, então ainda na primeira das suas diversas e sucessivas ditaduras, foi o primeiro país que cedeu aos desejos dos Estados Unidos, assinando o tratado de reciprocidade comercial, que ficará conhecido na história pelo nome de tratado Blaine-Salvador, porque os seus signatários são aquele estadista americano e o ministro brasileiro em Washington, sr. Salvador de Mendonça.
Esse tratado, foi motivo para o Brasil ser prejudicado sem a mínima vantagem, e deu ocasião a uma grande deslealdade por parte do governo norte-americano.
O que concederam os Estados Unidos ao Brasil por esse tratado? A isenção de direitos de importação sobre o café brasileiro e sobre alguns tipos de açúcar. Ora, o café já não pagava direitos nos Estados Unidos desde 1873. E porque naquela época suprimiram os Estados Unidos aquele imposto? Não foi para obsequiar o Brasil; foi porque assim convinha aos interesses do povo americano. A tarifa aduaneira americana é protecionista; as suas elevadas taxas não têm por fim aumentar os rendimentos do tesouro, mas simplesmente proteger as indústrias e as culturas nacionais. Os Estados Unidos têm por força de importar café, gênero que não produzem. Um imposto sobre a entrada do café viria a recair, na verdade, sobre o consumidor americano. Grande produtor de café, pelas condições geográficas e pelo seu monopólio dessa produção no ocidente, o Brasil tinha fatalmente de abastecer o mercado americano. Não é uma verdadeira burla querer fazer-nos acreditar que a isenção de direitos sobre o café brasileiro é um favor feito ao Brasil? Se os Estados Unidos voltassem de novo a impor direitos sobre o café, o Brasil nem por isso perderia o mercado americano onde não temos concorrência. Somente o consumidor americano pagaria mais caro aquela bebida que lhe é indispensável. Quanto ao açúcar, a isenção de direitos seria na realidade útil à indústria açucareíra do Brasil, se esta isenção fosse concedida só ao produto brasileiro. Ora, um tratado anterior e em vigor, já dava livre entrada no território americano aos açúcares do Havaí, mas, apesar disso, o Brasil lucraria muito se não tivesse outro concorrente, senão aquelas ilhas, a gozar da livre entrada.
Quando em fevereiro de 1891 foi publicado no Brasil o texto do tratado Blaine-Salvador, todo o mundo entendeu que só o Brasil beneficiaria da isenção de direitos sobre o açúcar. Imediatamente depois, o Jornal do Commercio anunciou, em telegrama de Madri, que o governo americano fizera aberturas à corte de Espanha, solicitando a celebração de um tratado em virtude do qual os açúcares de Cuba e de Porto Rico entrariam nos Estados Unidos livres de direitos. Desaparecia assim para o Brasil a única vantagem que se esperava do tratado. Postos os produtos do Brasil em pé de igualdade com os das colônias espanholas, tratada a jovem república de modo igual à velha monarquia que mantém em ferrenho jugo colonial uma parte riquíssima da livre América — onde ficavam as vantagens para o Brasil, onde estava a fraternal preferência que a grande república devia também a outra república, que, embora menor, é ainda grande? Como era possível que o governo de Washington equiparasse no tratamento fiscal a carunchosa e antipática monarquia da Europa decrépita com a virente e fraternal novíssima república da América do Sul? Não! Era impossível. Assim pensou por certo o governo da república brasileira, que se apressou em desmentir o ,i>Jornal no Diário Oficial, dizendo que era falso que se estivesse tratando de um convênio comercial qualquer entre os Estados Unidos e a Espanha. O ministro do Brasil em Washington, quando aconselhava para o Rio o tratado comercial com os Estados Unidos, aflrmava que os Estados Unidos não dariam livre entrada aos açúcares de nenhum outro país. Essa era a promessa que lhe tinha feito o governo de Washington, e só a confiança nessa promessa é que fazia com que o governo no Rio fosse tão afirmativo. O Jornal do Commercio insistiu, deu esclarecimentos, anunciou que o sr. Foster ia à Espanha tratar — tudo foi em vão. O governo manteve a sua negativa. Semanas depois era assinado o tratado! Os açúcares de Porto Rico e de Cuba tinham livre entrada nos Estados Unidos, e desaparecia assim a única vantagem que ao Brasil poderia trazer o tratado Blaine-Salvador. E não parou aí o governo de Washington; fez logo outros tratados com a América Central, com a Alemanha e com a Holanda. Venezuela também fez um tratado, mas o Congresso venezuelano rejeitou-o.
O governo brasileiro foi assim ludibriado pela esperteza americana. Em troca de um favor fictício e ilusório, em seguida a uma negociação em que a má fé norte-americana tornou-se evidente, o Brasil concedeu isenção de direitos às farinhas de trigo dos Estados Unidos, deu igual isenção a vários outros artigos americanos, e para todos os outros introduziu uma redução de 25 por cento nas tarifas da alfândega. Esta concessão trouxe considerável prejuizo para a roda do tesouro(61), que já não atravessava época para tanta generosidade. E mais do que isto, ela causou dano muito grande às indústrias já estabelecidas no Brasil e em via de prosperidade. Há uma vantagem muito grande para os países importadores de pão em transportar de preferência o trigo para reduzí-lo a farinha nos mercados ou próximo dos mercados consumidores. O consumidor beneficia duplamente por esta forma, já porque o frete é muito menor (pois num volume reduzido se transporta maior quantidade de substância alimentária), já porque a qualidade é superior, pois o transporte por mar e o tempo facilmente alteram a farinha que até corre o risco de grande avaria, risco que junto ao maior frete, é tudo computado pelo vendedor em detrimento do consumidor. Havia no Brasil muitos moinhos de moer trigo em que estavam empregados capitais importantes e grande número de trabalhadores. Estas empresas ficaram arruinadas, os trabalhadores sem trabalho, e o consumidor lesado, desde que as farinhas americanas, pelo tratado, foram admitidas livres de direitos. Não há quem tenha esquecido os importantíssimos depoimentos, em que a grande maioria dos negociantes, dos industriais e dos financeiros do Brasil, em cartas escritas ao Jornal do Commercio, se manifestaram, em quase unanimidade, contra o desastroso tratado.
Estas manifestações e estas queixas de nada valeram. Mandava quem podia, e o mal estava feito, sofresse embora o povo brasileiro, gemessem embora as nossas indústrias.
Eis aí mais um benefício que recebemos dos Estados Unidos(62).



IV


Seria um erro colossal o acreditar que nos Estados Unidos há simpatias pela América do Sul, Brasil e especialmente pela forma de governo que lhe foi aplicada há quatro anos. Por mil modos se revela o desprezo americano pelos irmãos do sul do continente. Em frente ao capitólio de Washington há uma estátua do fundador da independência americana. O escultor Greenough fez-lhe uns baixos relevos simbólicos tirados da história de Hércules. Hércules e seu irmão Íficles, infantes, repousavam no mesmo berço e foram assaltados por duas serpentes. Íficles, simples mortal, filho de Anfitrião e de Alcmene, rompeu em clamores; Hércules, fruto do adultério olímpico de Alcmene e de Jove, com as mãos estrangulou as serpentes, mostrando assim a sua origem divina. Esta é a cena que o escultor pôs no pedestal da estátua de Washington. O que quis o artista simbolizar? Os guias descritivos das grandezas da cidade de Washington esclarecem o pensamento do estatuário. Depois de nos indicarem minuciosamente (como convém a uma crítica de arte à moda americana) o preço da estátua, o seu volume, o seu peso, a qualidade do mármore, as peripécias do seu transporte desde Florença até às margens do Potomac, dizem-nos finalmente os guias que os dois meninos de mármore, os dois gêmeos da fábula, representam a América do Sul e a América do Norte. Aquela é a cobardia, a fraqueza de Íficles, e esta é a majestade divina de Hércules(63).
Nos Estados Unidos, a palavra — America — significa a parte do novo continente que obedece ao governo de Washington. Respeitam os americanos a soberania da Inglaterra no Canadá e, por todas as outras nações, há, nos benévolos, uma grande indiferença e nos outros, um sentimento de acentuada superioridade que é feito de amor próprio e de desprezo pelos sul-americanos. Basta dizer que entre os norte americanos, é motivo de chacota o haver países como o México, Venezuela, Colômbia e um outro que conhecemos, que têm a petulância de se intitular Estados Unidos... Isto parece-lhes de um cômico irresistível. Quando se fala desses United States, há nos lábios americanos o mesmo sorriso que teria o duque de Wellington, ouvindo nomear um dos presidentes do Haiti, o general Salomon que se intitulava duque de Crique-Mouillée.
O Imperador D. Pedro II tinha grande prestígio nos Estados Unidos. O seu amor à liberdade, o seu espírito aberto a todas as novidades do século, a sua atividade, a singeleza da sua pessoa, impressionaram sempre os americanos, que de um rei só faziam a idéia de um homem rodeado de fausto, de um defensor do passado contra o espírito inovador. Os discursos pronunciados no senado americano, quando se discutiu o reconhecimento da república brasileira, consistiram quase que exclusivamente não no elogio dos vencedores, mas na exaltação das virtudes do grande vencido. O governo americano foi o último, de todos os governos do novo continente, que reconheceu a república no Brasil, e se inspirou, decerto, para essa demora, na frieza, na quase hostilidade, com que a imprensa recebeu a revolução. Ainda há bem pouco tempo, o correspondente do Paiz, em Nova York, rememorava estes fatos, insistindo na pouca simpatia que os americanos manifestavam pela nova ordem de coisas no Brasil. Basta lembrar o que disseram os jornais americanos quando, em 1890, chegou a Nova York uma esquadrilha brasileira que, segundo diziam os jornais do Rio, ia participar ao governo americano a proclamação da república e apresentar os comprimentos do novo governo ao presidente dos Estados Unidos.
Com a precipitação com que foi organizada a esquadrilha, esqueceram-se no Rio de que os navios iam chegar a Nova York em pleno inverno. O frio em 1890-91 foi intensíssimo e os pobres marinheiros, vestidos ligeiramente, sofreram imenso. O governo americano forneceu-lhes roupas grossas e cobertas. Era de ver como os jornais de Nova York noticiavam estes fatos. Uns, descreviam os negros brasileiros chorando de frio, escondidos no porão, os navios abandonados, o convés não varrido, os oficiais com frieiras nos pés, enfim, um destroço completo. Tudo isto acompanhados de ditos picantes e de uma insistência enorme nos favores com que o governo americano estava acudindo à miséria e à desgraça daqueles maltrapilhos. No mesmo ano, veio uma esquadra americana ao Rio, dizendo-se que vinha expressamente cumprimentar o governo. O generalíssimo Deodoro convidou-os para um baile; o comandante da esquadra pediu-lhe que apressasse o baile, e como houvesse alguma demora, a esquadra partiu sem sequer esperar pelo tal baile.
Dois anos depois, uma outra esquadra brasileira vai a Nova York a pretexto da exposição de Chicago e do centenário de Colombo. Os oficiais brasileiros ficaram vexados da linguagem da imprensa a seu respeito e da desconsideração com que foram tratados. Sempre colocados em último lugar, sempre preteridos em todas as atenções, o seu desgosto, se não faltou à verdade o correspondente do Paiz, foi muito grande e não se ocultou.
Quando houve o convite à oficialidade para ir a Chicago, os oficiais brasileiros todos recusaram, declarando a um representante da imprensa, que o faziam por se acharem justamente melindrados. Não lhes foi dada satisfação alguma, e, de volta ao Brasil, vieram de certo muito pouco inclinados a acreditar ainda na pilhéria da fraternidade americana.
O ministro do Brasil em Washington, o sr. Salvador de Mendonça, tem experimentado, muitas vezes, à sua própria custa, que, nos Estados Unidos, a sua entidade de ministro dos Estados Unidos do Brasil não merece nenhum respeito por parte da imprensa. S. exa. tem tido na sua carreira incidentes desagradáveis, que a imprensa americana há longa e maliciosamente glosado, sem ter em vista que s. exa., na sua qualidade de republicano intransigente, histórico e tudo o mais, e pelo seu título de ministro de uma república, devia ser tratado com mais respeito. O sr. ministro é amador de belas artes; tinha uma galeria de quadros todos assinados pelos maiores pintores antigos e modernos. Era uma galeria que valia muitos milhões; s. exa. mandou-a para Paris para ser vendida em leilão. Os peritos parisienses, encarregados da avaliação, declararam que os quadros eram todos falsos; s. exa., em telegrama para Paris, disse que estava de boa fé e que tinha sido enganado. Retirou os quadros, e, mais tarde, ofereceu alguns deles à Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro, que comeu por lebres primorosas todos aqueles gatos a óleo(64). Pois esta anedota, que é apenas um pouco cômica para o nosso ministro, e que só prova que s. exa. não entende de pintura, e que foi roubado, comprando por enorme soma aquela galeria, foi decantada nos jornais de Nova York, e o representante do Brasil coberto de ridículo. Outro fato: O sr. Salvador de Mendonça foi encarregado pelo governo de comprar uma grande quantidade de prata nos Estados Unidos. Os ministros da fazenda do Brasil têm todos, depois disso, pretendido que as contas não estão certas, que falta prata ou que falta dinheiro, conforme se tem visto pelas correspondências oficiais publicadas. Que tem a imprensa americana com esta questão inteiramente brasileira? E um ponto que deve ser ventilado entre dois altos funcionários da república brasileira, entre o ministro da fazenda e o ministro diplomático. Assim não têm pensado, porém, os jornais americanos e várias vezes têm voltado a esta desagradável história da prata publicando artigos deprimentes para o representante do Brasil. Sem dúvida que o governo de Washington não pode proteger o representante da república irmã contra a imprensa, porque esta é livre. Mas a má vontade é evidente em toda a sociedade americana. O representante republicano do Brasil parece sentir isto, porque, seguindo o exemplo de diplomatas de outros países que já foram pessoalmente agredidos pela imprensa, s. exa. podia, deixando de lado as suas imunidades, chamar os seus detratores aos tribunais. S. exa. tem com certeza confiança na justiça da sua causa, e se não lançou ainda mão deste recurso é porque não acredita muito na justiça americana quando esta tem de decidir entre um compatriota e um sul-americano.
O governo norte-americano, ainda há pouco, deu uma nova prova da pouca consideração que lhe merece a república brasileira. O governo de Washington elevou à categoria de embaixadores, o seu ministro em Paris e os seus representantes junto às cortes de Londres, Berlim, Viena, Roma, Madri e 8. Petersburgo. Ora, o Brasil é a segunda nação da América, por todos os títulos, há a consideração importantíssima de que, pelo istmo do Panamá, temos a honra de estar presos ao mesmo continente ocupado pelos Estados Unidos; temos, como eles, presidentes, ministros irresponsáveis, etc. Sendo assim, está claro que o Brasil merece muito mais dos Estados Unidos do que as carunchosas e decrépitas monarquias européias. Não obstante tudo isto, o governo de Washington conserva no Rio um qualquer representante diplomático de segunda categoria, não dando ao Brasil a confiança de tratar o seu governo com a consideração com que trata o governo espanhol ou o governo austríaco. É mister confessar que Washington usa para com o Brasil de fraternidade em dose muito moderada.
Desde que falamos em imprensa, devemos falar de outro modo, pelo qual também se manifesta sempre, pela maneira que temos visto, a amizade dos norte-americanos pelo Brasil. Falamos da notícia alarmante falsa ou verdadeira.
Nem tudo são rosas na vida do corpo diplomático sul-americano. Representantes do general A, nomeados pelo general B, estão prontos a servir o general C. Um belo dia chega um telegrama: “O general C. atacou o general A”. O que dirá o pobre diplomata aos reporters que o assaltam e perguntam quem tem razão, coisa já grave, e, coisa ainda mais grave, quem vencerá? É dificílima a reposta. Alguns há que se arriscam; se acertam, muito bem. Mas, se se enganam, estão perdidos, porque o vencedor demite-os sem piedade. Os espertos calam-se. A reportagem, porém, é feroz; a reportagem ganha por linha de notícia fornecida; e um reporter, quando não tem essa notícia, inventa-a. Muita vez há ingênuos que enxergam profundos maquiavelismos, intrigas habilíssimas e pérfidos intuitos de partidários ou conspiradores misteriosos numa notícia que foi arranjada num pobre quinto andar, numa água furtada de um reporter qualquer, que forjou essa notícia para equilibrar o seu orçamento da semana. Há, porém, outro gênero de notícia falsa que deve cair, e cai, dentro da ação dos tribunais. É a notícia falsa, com fins de especulação, para a qual há penalidade nas legislações de certos países. Ora, estas notícias falsas para fazer subir ou descer o café nos mercados, para fazer subir a cotação dos títulos brasileiros, nem sempre são notícias contrárias ao governo do Brasil. A especulação é de uma imparcialidade provada; às vezes anuncia os mais lisonjeiros acontecimentos, outras vezes as catástrofes as mais terríveis. Em todo o caso Nova York é que é o ponto de concentração e de expedição destas notícias. Os jornais americanos têm gasto muito dinheiro para ter notícias do Brasil nas diferentes crises agudas e periódicas da república; mas, em vez de receberem diretamente estas notícias, recebem-nas via Buenos Aires e Montevidéu, onde as notícias são todas exageradas e apimentadas com a má vontade dos nossos irmãos argentinos e uruguaios, que são nossos inimigos, apesar de nós termos seguido o seu exemplo adotando a forma de governo da Argentina e do Uruguai. Os Estados Unidos são, para o resto do mundo, o veículo transmissor da bílis argentina contra o Brasil; são os correspondentes de jornais americanos que atacam o Brasil; são as agências telegráficas americanas que enviam, para todos os pontos do globo, as notícias deprimentes do Brasil, notícias muitas vezes falsas, por vezes exageradas, e, ai de nós! às vezes também verdadeiras. E o que é curioso é que os jornais da Europa, que recebem dos Estados Unidos essas notícias, que transcrevem-nas, é que passam por difamadores do Brasil. Se os jornais americanos são insolentes para com o Brasil, o que pode verificar facilmente toda a gente, o mundo comercial dos Estados Unidos também nos é adverso. Nunca dos Estados Unidos veio o mínimo auxílio para as nossas indústrias, para a nossa lavoura ou para a nossa viação férrea. Há perto de quatrocentos mil contos de réis da Inglaterra empregados no Brasil, quer em empréstimos ao governo, quer em caminhos de ferro e outras indústrias. O Brasil era pobre quando iniciou a sua existência, era despovoado, tinha às portas inimigos ameaçadores, tinha problemas internos gravíssimos — e a Inglaterra teve confiança no Brasil, a Inglaterra nos confiou os seus capitais, mesmo em épocas críticas. E o povo inglês é tão superior que, em 1865, estando o Brasil de relações rotas com a Inglaterra, por motivo de questão Christie(65) (questão de que a dignidade do Brasil saiu ilesa), conseguiu levantar em Londres um empréstimo, na ocasião em que iniciávamos uma guerra terrível. E os capitais ingleses não corriam pequeno risco; aventuravam-se a todas as emergências da guerra com o Paraguai, e aos possíveis e mesmo prováveis desastres da abolição. E em quantas empresas estes capitais, em ações ou em obrigações, não estão por assim dizer enterrados? Se se aponta a São Paulo Railway como empresa até há pouco tempo remuneradora, e a Rio Claro Railway, em todas as outras estradas feitas com capital inglês os acionistas não recebem dividendos, ou recebem-nos mínimos. E que enorme capital não há empregado na Alagoas Railway, Bahia e São Francisco, ramal do Timbó, Brasil Great Southern, Imperial Bahia Company, Natal e Nova Cruz, Campos e Carangola, Conde D’Eu, Caravelas Navigation Company, Dona Thereza Christina, Leopoldina, Macaé e Campos, Porto Alegre e Nova Hamburgo, Recife São Francisco, Norte do Rio, Southern Brazilian, Bahia Central Sugar C.°, North Brazilian Sugar Factories, Rio de Janeiro Flour Mils C.°, Gás da Bahia, Gás do Pará, do Ceará, Gás do Rio (capitais belgas), Águas de Pernambuco, etc., etc.? Todas estas empresas, que enumeramos, representam milhões de libras esterlinas que nada, ou quase nada, rendem aos capitalistas. Entretanto estes capitais aí estão frutificando para o Brasil, mantendo a facilidade de transporte em regiões que dela se aproveitam, e dando luz e água às populações. E as empresas que dão alguma remuneração, de quantos benefícios não enchem o Brasil? E que enorme prejuízo já não têm dado aos capitalistas europeus as nossas desgraças? Confiados num longo passado de tranqüilidade, os capitalistas europeus tinham os títulos brasileiros no mesmo apreço que os das primeiras nações do mundo. O 4% brasileiro estava a 90 a 14 de novembro de 1889; hoje vale 54(66). Os capitalistas confiaram em nossa estrela; estavam ao nosso lado nos dias prósperos, perdem hoje conosco nos dias maus. E, se algum capitalista europeu se queixa, não somos nós, os devedores, que devemos protestar. As nossas desgraças não provêem de causas físicas; se estivéssemos arruinados por algumas causas naturais, se o café tivesse tido uma moléstia destruidora, como a Hemileia vastatrix de Ceilão e de Java, se terremotos, secas ou inundações nos tivessem reduzido ao ponto em que estamos, então a queixa seria insensata. Mas, não... tudo caminha, na parte que compete à Providência ou ao acaso, admiravelmente; agora, na parte que cabe aos homens, sabemos todos o que tem sido. Dizem, porém, que há por aí uma coisa que precisa se consolidar e que para essa consolidação se dar, é preciso que todos os brasileiros sofram. As vítimas têm o seu bom senso e elas já dizem ou pensam: Se é preciso sofrermos tanto, é melhor que a tal coisa não se consolide! Esta opinião é fatalmente a de todo o homem isento da superstição partidária.
Voltando aos americanos, devemos perguntar: de que auxílio têm eles sido para o desenvolvimento da prosperidade material do Brasil? Os capitais deles para cá não vêm, os seus braços para cá não emigram. As duas empresas de navegação que organizaram acabaram na falência culposa e mesmo fraudulenta, fugindo o americano gerente de uma delas com o dinheiro dos acionistas brasileiros e com a subvenção que lhe pagou o governo.
Fala-se que os americanos são nossos grandes fregueses de café. Em primeiro lugar, é absurdo fazer-se deste fato motivo para uma gratidão sentimental. Os americanos não compram café por amizade, nem por filantropia. Compram porque querem bebê-lo, e, não o tendo em casa, procuram-no onde encontram, e o país que mais lhe convém é o Brasil. Mas, ainda em relação ao café, é força confessar que a feição dos mercados europeus é mais favorável ao Brasil do que o mercado de Nova York. Seja pelo que for, o motivo, a tendência constante dos mercados europeus é para a alta e Nova York é para a baixa. Sem dúvida, de um e de outro lado, o que determina esta atitude é a especulação, mas é inegável que devemos ter mais simpatias por aqueles que, embora só por interesse próprio, promovem a valorização de um produto brasileiro, valorização que redunda em proveito do Brasil. Fala-se que a França impõe um pesado direito de entrada sobre o café; mas quem paga esse direito é o próprio consumidor francês. Demais o Havre, Antuérpia e Hamburgo, têm, no seu papel de mercados distribuidores, espalhado pela Europa toda o nosso café e desenvolvido muito o seu comércio. Nova York, porém, pesa sempre no mercado do mundo pelos seus grandes esforços para fazer cair o café; quando a lavoura do Brasil esteve quase desanimada pela baixa do café, foi porque a especulação de Nova York estava triunfante! E hoje mesmo, afrouxem os mercados europeus os seus esforços, e o fazendeiro verá que os americanos envilecem logo o seu produto e se verá câmbio baixo, e café também baixo o que não é impossível, como muita gente crê.

Temos visto o que os Estados Unidos têm sido para toda a América latina.
Insistimos especialmente no que tem sido para nós na diplomacia e na ordem econômica. Terminaremos vendo qual a influência daquele país na ordem moral e intelectual.
A influência dos Estados Unidos sobre o Brasil fez-se sentir, em nossa grande questão social — a escravidão.
Não teríamos conservado por tanto tempo aquela instituição iníqua, se a maior nação da América não tivesse tentado legitimá-la, e se, da parte escravocrata dos Estados Unidos, não nos viesse o incentivo, se não chegasse até nós a notícia do que se dizia e do que se fazia nos Estados Unidos para defender a escravidão.
A corrupção política e administrativa é a própria essência do funcionamento do governo americano. Os Estados Unidos são o país mais rico do mundo; rico pelas opulências naturais, pela sua enorme extensão, pela fertilidade do solo, pelos seus portos, suas baías, seus lagos, seus grandes rios navegáveis, suas minas incomparáveis. Povoado um solo destes pela raça saxônia, como poderia deixar este país de ser uma nação forte e poderosa? O solo mais rico do mundo, habitado pela raça mais enérgica da espécie humana — eis o que são os Estados Unidos. Aquele país é grande, mas não é por causa do seu governo. Ao amor próprio de outras nações pobres ou, por outra, menos ricas em vantagens naturais do que os Estados Unidos e habitadas por indivíduos de raças menos enérgicas — repugna o confessar esta inferioridade. Insensivelmente, a gente é levada a não reconhecer as alheias superioridades ou atribuí-las a causas pouco desagradáveis para a nossa vaidade. Não há desar algum em dizermos que há povos governados com mais acerto do que nós — mas, quanto a confessarmos que esses povos o que são, é melhores do que nós, quanto a dizermos que a terra deles é mais rica do que a nossa — a isso é que nunca nos havemos de resignar. Por essa razão, é explicável que alguns brasileiros, de espírito simplista, queiram por força ver, nas vantagens que nos levam os Estados Unidos em prosperidade, um efeito, não de causas naturais e irremediáveis, mas uma resultante da diferença dos governos. O solo não se pode trocar, a raça não se pode substituir, mas, em todo o tempo, é possível mudar o governo. Não podendo dar-nos o solo dos Estados Unidos, nem as qualidades étnicas do seu povo, houve quem quisesse dar-nos ao menos o seu governo, isto é, o que de menos invejável tem a grande nação.
E a escola fatal dos imitadores de instituições não atende ao contra-senso do seu sistema, nem aos funestos resultados que produzem as leis transplantadas arbitrariamente de um país para outro. Quando os romanos ainda rudes conquistaram a culta Grande Grécia, Valério Messala trouxe de Catania um relógio solar que mandou colocar no Fórum junto aos Rostros. Não atendeu Valério Messala nem à diferença de longitude nem à orientação do gnômon, e dispô-lo ao acaso. Só um século mais tarde é que se descobriu em Roma que o relógio solar marcava a hora com grande erro de tempo, e só então é que foi substituído. O relógio que dava o tempo certo em Catânia errava em Roma(67). Assim as instituições: podem dar certo nos seus países de origem, e trazer a confusão e a desordem nos países para onde arbitrariamente as transmudam.
No Brasil aconteceu o mesmo com a idéia funestíssima de copiar os Estados Unidos nas suas leis políticas. Copiemos, copiemos, pensaram os insensatos, copiemos e seremos grandes! Deveríamos antes dizer: Sejamos nós mesmos, sejamos o que somos, e só assim seremos alguma coisa. Imagine-se um indivíduo qualquer que, admirando uma tela de Velasquez, deseje pintar como ele. De que servirá ter a tela, os pincéis, a palheta e as tintas perfeitamente iguais, em matéria prima, tamanho e dosagem às do pintor espanhol? Debalde arranjará as tintas e esforçar-se-á para pintar como Velasquez. Terá tudo quanto tinha Velasquez, menos o gênio, e mesmo tendo gênio, será outro gênio e não o gênio de Velasquez. Assim, os países sul-americanos querem ser ricos e prósperos como os Estados Unidos, e pensam que conseguirão isto copiando artigos da constituição norte-americana. E como é muito da natureza humana imitar mais facilmente os vícios do que as virtudes, a imitação das práticas corruptas da administração americana é coisa muito natural. “Nos Estados Unidos rouba-se muito”, pensa o empregado público sul-americano, “e, apesar disso, são um grande país; ora, porque também não será grande o meu país, apesar de eu roubar e dos meus colegas roubarem?” Este raciocínio apresenta-se forçadamente à fragilidade do funcionário, a tentação fortalece-se e... o resto temos visto. Não há salteio à propriedade que não encontre escusa no fato de ser esse salteio muito comum nos Estados Unidos. Essa é a influência deletéria que os Estados Unidos exercem na América. Os vícios dos grandes corrompem os pequenos, e o mau exemplo dos poderosos é a perdição dos humildes.
A civilização norte-americana pode deslumbrar as naturezas inferiores que não passam da concepção materialística da vida. A civilização não mede-se pelo aperfeiçoamento material, mas sim pela elevação moral. O verdadeiro termômetro da civilização de um povo é o respeito que ele tem pela vida humana e pela liberdade.
Ora os americanos têm pouco respeito pela vida humana. Não respeitam a vida de outrem e nem a própria. Herbert Spencer dizia aos americanos que eles cometem um erro fundamental no programa da vida, gastando-a com a febre, em que mutuamente se exaltam, e que dá lugar ao deperecimento precoce do animal homem, pela aparição das mais medonhas e freqüentes formas de nevrose. A vida de outrem é coisa de pouca consideração nos Estados Unidos. Os tribunais regulares matam juridicamente com freqüência, os assassinatos criminosos são vulgaríssimos, e os linchamentos crescem em número todos os dias. Tudo isto são formas acentuadas de desprezo pela vida humana. O linchamento é o assassinato coletivo, e o fato da vítima ser, às vezes, criminosa, em nada diminui o horror do fato, porque esse é agravado, já pelos requintes freqüentes de ferocidade, já pela irresponsabilidade do ajuntamento que resolve e executa a pretendida sentença. No Brasil, há uma pequena colônia americana; a parte dela estabelecida na zona cafeeira do sul, veio, quase toda, ao findar a guerra de secessão e era composta de sulistas que, privados de ter escravos na sua pátria, emigravam para o país onde ainda lhes era permitido esse prazer. A população brasileira viu chegar esses novos hóspedes, e viu os que se instalaram na agricultura excederem em ferocidade aos mais rudes e perversos atormentadores de escravos. Os americanos introduziram novas formas de tormentos e novos aparelhos de suplício. Como os ingleses transportam-se aos confins do mundo levando as suas pás de cricket e as suas redes de lawn-tennis e conservam o amor dos exercicios físicos, que é a força da sua raça, os americanos traziam, para usar nos escravos, azorragues aperfeiçoados e algemas patent, e trataram logo de propagar o linchamento. Nos vários casos de linchamentos que temos notícia, há sempre um americano instigador e comparticipante. Esses casos têm sido raros até e circunscritos à zona de S. Paulo onde há americanos. O exemplo é, porém, funestíssimo, o contágio rápido, tanto mais quanto a impunidade é certa.
O espírito americano é um espírito de violência; o espírito latino transmitido aos brasileiros, mais o menos deturpado através dos séculos e dos amálgamas diversos do iberismo, é um espírito jurídico que vai, é verdade, à pulhice do bacharelismo, mas conserva sempre um certo respeito pela vida humana e pela liberdade. O rábula de aldeia é, sem dúvida, um ente inferior, mas em todo o caso, é superior, como unidade social, ao capanga e ao mandão. O período do desbravamento da terra, da derrubada das matas, do estabelecimento das primeiras culturas, é, no interior e nas localidades novas, a idade do capanga; o escrivão, o promotor, o juiz, que vêm depois, expelem e eliminam o capanga. É a lei que substitui a violência. O espírito americano, infundido nas populações, é antes favorável ao capanga do que à gente do foro; é o estrangeiro, cujo prestígio é sempre grande, é o homem de cabelo louro e de olhos azuis sempre atacado pelos nossos negróides, influindo em favor da violência, nobilitando-a pela sua prepotência. O americano, mesclado com as camadas inferiores da população rural, não é um fator de progresso. Ele age sobre o meio e o meio reage sobre ele, havendo uma comunicação recíproca de defeitos que afoga as qualidades de ambos. Uma ou outra enxada aperfeiçoada que o americano traz, algum canivete de molas engenhoso, que ele introduz na ferramenta nacional, não são* benefícios que compensem os males que ele nos faz(68).
Já falámos do muito que contribuíram os Estados Unidos para a duração da escravatura no Brasil pela força danosa do seu exemplo, e também por ter inspirado aos timidos o receio de que a solução do problema no Brasil fosse a mesma tragédia da América do Norte. Não devemos, porém, esquecer que os americanos contribuíram muito para o tráfico africano no Brasil. O presidente Taylor, na sua mensagem de 4 de dezembro de 1849, dizia: “Não se pode negar que este tráfico é feito por navios construídos nos Estados Unidos pertencentes a americanos e tripulados e comandados por americanos”. E isto não nos deve causar maior admiração do que nos causa o lermos na mensagem presidencial de 1856, que “é indubitável que o tráfico africano encontra nos Estados Unidos muitos e poderosos sustentadores”. De entre as muitas provas da grande parte que os americanos do Brasil tomaram no tráfico, destacaremos o depoimento juramentado do capitão W. E. Anderson, americano, depoimento prestado na legação americana do Rio de Janeiro no dia 11 de junho de 1851. Diz o capitão Anderson que, em 1843, fez o conhecimento de Joshua M. Clapp, cidadão americano, que “antes e depois daquela época ocupava-se em larga escala da compra e frete de navios americanos para o tráfico”. Refere-se ainda Anderson a um outro americano, Franck Smith, que também era negreiro. O ministro americano no seu despacho remetendo este depoimento, queixa-se muito de Clapp e de Smith como grandes negreiros que, diz o ministro “desonram a bandeira dos Estados Unidos”. O depoimento de Anderson revela todos os ardis dos americanos do Rio na costa de África, as suas crueldades e os seus grandes lucros.(69)
Isto quanto à massa popular é o que temos observado no sul do Brasil, onde, em pontos isolados, houve, em tempos, pequenos núcleos de colonos americanos. No norte do Brasil, cremos que não há americanos senão como negociantes no litoral, além do clássico dentista, e talvez de um ou outro médico desgarrado. Nos sertões do norte, cremos que o americano é conhecido apenas sob a forma nômada de comprador de couros de cabra por conta dos negociantes da costa. Os Clapps e Smiths, negreiros de outro tempo, variam de profissão, mas conservam os mesmos instintos.
Na ordem intelectual, os benefícios da América do Norte em relação ao Brasil não são em nada especiais. O Brasil não tem beneficiado mais do que as outras nações do mundo, dos inventos americanos. Têm sido viajantes alemães, franceses, ingleses e dinamarqueses que têm escrito os melhores livros sobre o Brasil e melhor estudado a nossa natureza. Se excetuamos Hart, americano, cujas monografias são reveladoras de uma profundeza de observação notabilíssima, se excetuamos Orville Derby, cujos trabalhos são do mais alto valor e cujos serviços à ciência brasileira têm sido e hão de ser ainda inestimáveis, onde estão os escritores americanos que se têm ocupado de modo sério do nosso país? Os professores que aqui se apresentam têm sido de uma mediocridade desesperante, nada têm feito, nada têm criado. E poderíamos encher duas páginas com os nomes dos europeus que pelo livro, pelo estudo, pela observação e pelo ensino, têm trabalhado no reconhecimento científico das nossas riquezas e elevado o nosso nível intelectual.
E dos viajantes americanos que têm escrito sobre o Brasil, quais têm sido simpáticos ao nosso país? Se não todos, a grande maioria deles fala de nós com injusto desfavor. Se europeus da estatura de Martius, Auguste Saint-Hilaire, Sir Richard Burton, Bates, Elisée Reclus e tantos outros nos são simpáticos, os americanos exprimem-se até com desprezo a nosso respeito. Numa narrativa de viagem, que é um documento oficial americano, isto é, a relação da expedição exploradora americana em 1838-1842(70), somos vilipendiados por tal modo que uma revista americana censurou acremente o governo de Washington por ter consentido, numa publicação nacional, expressões tão grosseiras e baixas contra um país estrangeiro.(71)
E o que diremos dos estudos que têm feito brasileiros nos Estados Unidos? Salvas algumas exceções, pode-se dizer que os — formados nos Estados Unidos — são, na concorrência brasileira, os que menos sabem e os que menos preparo têm. São engenheiros incapazes, médicos que, às vezes, nem ousam afrontar o exame de suficiência e muitos outros doutores em artigos de fantasia como agricultura, arquitetura, etc., etc., e a quem faltam os rudimentos de toda e qualquer instrução geral. E verdade que, em certas famílias brasileiras, mandam-se para os Estados Unidos os incapazes, os reprovados nas escolas do Brasil, enfim os mesmos rapazes que, noutro tempo, iam para padres ou para soldados. Seja como for, a verdade é que os torna-viagens dos Estados Unidos, embora voltem um pouco desasnados, não vêm em geral trazer, ao concurso das atividades brasileiras, senão a sua perturbadora, ou, pelo menos, inútil e grande incompetência, agravada pela presunção. Isto provém de que, nos Estados Unidos, há universidades para todas as inteligências como há hotéis para todas as bolsas. Há também gradações nos diplomas. Há para todas as capacidades e para todos os preços. E esta mocidade julga as coisas americanas, compara os Estados Unidos com o Brasil, não vê as nossas qualidades, não conhece os antecedentes da nossa história, os feitos dos nossos maiores, e por isso quer lançar tudo ao desprezo, rompendo com o passado, e, se eles pudessem, transformariam a sociedade brasileira num arremedo simiesco dos Estados Unidos que eles julgam o primeiro país do mundo, porque há por lá muita eletricidade e bons water closets. Não tendo a ponderação que à raça saxônia dá a harmonia do seu desenvolvimento, estes nossos pobres luso-índio-negróides desequilibram-se de todo, no meio da febricitação americana.
E é muito real a ação perturbadora do nervosismo norte-americano nas organizações latinas. Temos conhecido muitos casos individuais bastante curiosos. Uma vez entrávamos em Nova York vindo de Panamá, e os passageiros sobre a tolda contemplavam o espetáculo grande e cheio de vida daquele porto imenso. Ouvíamos já o alarido dos carregadores e dos operários nas pontes de desembarque. Nos estaleiros martelava-se infernalmente o ferro; no vapor havia um rebuliço* ruidoso das bagagens tiradas do porão, puxadas pelos guindastes.
Junto a mim estava um velho, não sei se de Nicarágua, de Guatemala ou de Honduras, mas certamente de um desses ilustres países que, mais civilizados do que o Brasil de então, gozavam já dos benefícios da forma republicana. O velho contemplava as três grandes cidades de Nova York na frente, de Brooklyn à direita e de Jersey à esquerda, que se espraiavam cinzentas e esfumaçadas diante de nós. O velho, mestiço talvez de Azteca e de conquistador espanhol, olhava vagamente com instintos atávicos de presa e de salteio:
Quien sabe? exclamou ele, quem sabe se um dia nós, os de Nicarágua, não viremos a tomar Nova York?! — Centenares de vapores, grandes, pequenos, lentos como elefantes ou rápidos como cervos, cruzavam-se ao redor de nós, badalando as campanas de bronze e estrugindo no ar os seus silvos agudos e as notas roucas e longas de seus uivos de vapor. — Ninguém respondeu à profecia interrogativa do velho, e este, sorrindo tristemente, disse: “Só com os assobios esta gente nos havia de enlouquecer:”. (Solo com los pitos nos volverian locos). Não queremos dizer que os assobios das máquinas americanas enlouqueçam os brasileiros dos Estados Unidos; o que é certo, porém, é que não encontramos na vida da nacionalidade brasileira nenhum traço luminoso de um discípulo americano. Nem ao menos, por esse lado, temos coisa alguma que agradecer à república norte-americana.



V


Devemos concluir de tudo quanto escrevemos:
Que não há razão para querer o Brasil imitar os Estados Unidos, porque sairíamos da nossa índole, e, principalmente, porque já estão patentes e lamentáveis, sob nossos olhos, os tristes resultados da nossa imitação;
Que os pretendidos laços que se diz existirem entre o Brasil e a república americana, são fictícios, pois não temos com aquele país afinidades de natureza alguma real e duradoura;
Que a história da política internacional dos Estados Unidos não demonstra, por parte daquele país, benevolência alguma para conosco ou para com qualquer república latino-americana;
Que todas as vezes que tem o Brasil estado em contato com os Estados Unidos tem tido outras tantas ocasiões para se convencer de que a amizade americana (amizade unilateral e que, aliás, só nós apregoamos) é nula quando não é interesseira;
Que a influência moral daquele país, sobre o nosso, tem sido perniciosa.

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Se a longa série de fatos que apresentamos, se as razões que expendemos não bastassem para chamar à verdade os espíritos ainda os mais rebeldes, bastaria citarmos a opinião do maior dos americanos, para dissipar as veleidades de afetos e os ingênuos sentimentalismos que nos querem impor a respeito dos Estados Unidos.
Não! Toda a tentativa para, em troca de qualquer serviço, colocar a pátria livre e autonômica em qualquer espécie de sujeição para com o estrangeiro, é um ato de inépcia e é um crime.
Jorge Washington, na sua mensagem de adeus, verdadeiro e sublime testamento, escreveu as seguintes palavras que a veneração americana tem conservado através das gerações:
“... Deveis ter sempre em vista que é loucura o esperar uma nação favores desinteressados de outra, e que tudo quanto uma nação recebe como favor terá de pagar mais tarde com uma parte da sua independência... Não pode haver maior erro do que esperar favores reais de uma nação a outra ...(72)
Que o conselho de Washington não sirva somente para os seus compatriotas... Os brasileiros devem aceitar a lição, e sejam quais forem as fatalidades do momento, saibam eles repelir o estrangeiro que só conseguirá aviltar o país que aceitar os seus serviços.

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No recanto do solo brasileiro de onde escrevemos estas linhas, os meses de setembro e de outubro deste ano de 1893(73), não se distinguiram em coisa alguma dos de outros anos. Estas semanas são as da primeira carpa das roças e do plantio do milho. Quanta filosofia inconsciente e prática, quanta sabedoria inata neste povo! E quanto sentimos que a civilização destruísse em nossa alma a serenidade desta gente.
Clama alto em nosso espírito a voz da experiência fria e implacável e, pessimista, ela nos diz: A colonização ibérica da América foi um insucesso, foi uma desgraça para a civilização do nosso planeta. Não chegam a ser nações os agrupamentos em que gânglios de populações mestiças, oriundas de todas as inferioridades humanas, querem por força fingir de povos... O amálgama artificial chamado Brasil está desfeito, apesar de duas ou três gerações terem chegado a viver e morrer na ilusão do artifício, que agora vai findar.
Vemos, porém, o bloco imenso de uma rocha ferruginosa, ora decomposta, e que forma uma montanha de terra arroxada, como que embebida do sangue, ainda fresco, de hecatombes recentes. Aquela terra já existia há milhares de anos, antes de existir tudo quanto hoje existe e faz ruido. Ela existia antes do tempo em que o exército de César era contra a armada de Pompeu. Existirá ainda, quando, de outros ambiciosos, não restarem nem os nomes pouco ilustres.
7 de novembro de 1893.

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APÊNDICE


No dia 4 de dezembro de 1893 foi posto este livro à venda nas livrarias de S. Paulo. Vendidos todos os exemplares prontos nesse dia, foi às livrarias o chefe de polícia e proibiu a venda. Na manhã seguinte a tipografia em que foi impresso o livro amanheceu cercada por uma força de cavalaria, e compareceram à porta da oficina um delegado de polícia acompanhado de um burro que puxava uma carroça. O delegado entrou pela oficina e mandou ajuntar todos os exemplares do livro, mandando-os amontoar na carroça. O burro e o delegado levaram o livro para a repartição da polícia. No mesmo dia a Platéa publicava o seguinte:

Um interview com o dr. Eduardo Prado.

Como sabem os nossos leitores, apareceu à venda o novo livro do dr. Eduardo Prado, A Ilusão Americana*, de cuja aparição nos ocupamos no último número desta folha.
Todos os exemplares postos à venda no sábado foram vendidos. Soubemos nesse dia que a polícia proibiu a venda do livro.
O nosso colega Gomes Cardim, por ir lendo num bonde a obra proibida, foi levado à polícia. O mesmo aconteceu com um cavalheiro, de cujas mãos, na Paulicéia, foi arrancado um exemplar por um polícia secreta.
Um redator desta folha foi procurar o autor para ouvir da sua boca as suas impressões relativas ao sucesso do seu livro e o seu parecer sobre a proibição.
O dr. Eduardo Prado recebeu muito graciosamente o nosso companheiro, e não pareceu dar muita importância nem ao livro nem à sua proibição.
Eis, mais ou menos, o que ele nos disse:
— Na minha infância, havia na rua de S. Bento um sapateiro que tinha uma tabuleta onde vinha pintado um leão que, raivoso, metia o dente numa bota. Por baixo lia-se: Rasgar pode — descoser não. Dê-me licença para plagiar o sapateiro e para dizer: Proibir podem, responder não.
Quanto ao honrado chefe de polícia, penso que s. exa. lisonjeou-me por extremo julgando a minha prosa capaz de derrotar instituições tão fortes e consolidadas como são as instituições republicanas no Brasil.
Demais, s. exa. pode dizer-se que, só por palpite, proibiu o livro. Saiu o volume às quatros horas e às cinco foi proibido antes da autoridade ter tempo de o 1er.
Confesso que a publicação foi um ato de ingenuidade da minha parte. Não quero dizer que confiei, e por isso digo antes que estribei-me no artigo 1.° do decreto n.° 1.565 de 13 de outubro passado, regulando o estado de sítio. O vice-presidente da república e o sr. seu ministro do interior disseram nesse artigo:
“Artigo 1.° É livre a manifestação do pensamento pela imprensa, sendo garantida a propaganda de qualquer doutrina política.”
E com suas assinaturas empenharam a sua palavra nessa garantia. Escrevo um livro sustentando a doutrina política de que o Brasil deve ser livre e autonômico perante o estrangeiro, e adoto o aforismo de Montesquieu, de que as repúblicas devem ter como fundamento a virtude.
O governo é contrário a essas opiniões, e está no seu direito. Manda, porém, proibir o livro! Onde está a palavra do governo, dada solenemente num decreto, em que diz garantir a propaganda de qualquer doutrina política?
A sabedoria popular diz: Palavra de rei não volta atrás. — O povo terá de inventar outro provérbio para a palavra do vice-presidente da república. —”

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O autor recebeu de todos os pontos do Brasil grande número de cartas pedindo-lhe um exemplar do livro proibido. Estas cartas vinham assinadas por nomes dos mais distintos do país, e a todos estes correspondentes peço desculpa por me ter sido impossível aceder aos seus pedidos. Mencionarei somente, para prova de que os republicanos brasileiros alguns há que não são inimigos da liberdade de pensamento, uma carta do sr. Saldanha Marinho, em que este patriarca do republicanismo, saudoso decerto das práticas liberais da monarquia e rebelde às idéias liberticidas de hoje, protestava contra a proibição deste trabalho. A todos e a cada um cabem os agradecimentos do autor.
N. B. Este trabalho, tal qual foi escrito para a primeira edição, foi redigido sem o autor ter os seus livros à mão, nem as suas notas. Na edição atual todos os fatos citados são justificados com a citação das fontes oficiais ou dos autores que relatam os mesmos fatos.

FIM

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Notas




(1) — Willian Burke, South Américan independence, or the emancipation of South America, the glory and interest of England: London, 1807.
(2) — Chateaubriand, Le congrés de Vérone, chap XVI.
(3) — J. M. Samper, Ensayo sobre las revoluciones politicas y la condición social de las republicas hispano-americanas, pag. 195, Paris, 1861.
(4) — Von Holst, Constitutional History of the U. S. of America, vol. I, pag. 420; Jefferson’s, Worles; vol. VII, pg. 315 e 310.
(5) — Annual register of the year 1819, 1820 - pag. 233, London.
(6) — Von Holst, vol. I, pag. 422-428.
(7) — Wolsey, Introduction to the Study of International Law, § 74.
(8) — U. S. House of R. Docs. 20th Congress, Session 1st, vol. 7, Doc. 281.
(9) — U. S. Senate Documents: Congress 21st Sess. 2. 1830 e 31, vol. I, pag. 38. Doc. I.
(10) — Executive documents presented to the H. of Representatives 25th Congress. Doc. 32, pag. 32.
(11) — Ibidem.
(12) — Listas das quantias (capital e juros) pagas em virtude das reclamações americanas:
NAVIOSQUANTIAS
Tel-tale
37:924$850
Pioneer
21:134$676
Sarah George
42.472$199
Rio
8:081$034
Panther
4:229$918
Hero
12:048$979
Nile
3:313$178
Budget
30:939$993
Hannah
37:197$774
Spermo
92.245$803
Hussar
28:337$824
Amihy
16:922$878
Ruth
29:428$440
Ontário
1:742$000
Spark
61:250$000
Total
427:259$545
(13) — Vid. Le droit international codifié, § 512.
(14) — House of Representatives Exec. Docs. 5th session, vol. IV, 38th congress.
(15) — Ibidem, 37th congress; 2d session, vol. IV.
(16) — H. H. Bancroft, Worts. San Francisco, 1885, rol. XIII, cap. 13.
(17) — Ibidem, pag. 338, nota.
(18) — Livermore, War with Mexico, pag. 263.
(19) — Jay, Review of the Mexican War, pag. 259.
(20) — Gronlund, Co-operative Commonwealth. London, 1891. Swan & Sonnenschein, Pag. 157.
(21) — Henry Clay, Speeches, vol. I, pag. 89 e 90.
(22) — Von Holst, Constitutional history of the U. S., vol. I, pag. 415.
(23)Walker on Nicaragua, pag. 6, Cojutepec, 1856.
(24) — Haydn’s, Dictionary of Dates, 1889, pag. 635.
O relatório do ministro da marinha Toucey em 1857 fala a respeito do asilo concedido a William Walker nos seguintes termos:
“Julgou o governo necessário, como medida de humanidade e de política, dar instruções ao comodore Mervine (chefe da divisão naval), no sentido de facilitar ao general Walter e aos seus companheiros, no caso deles a solicitarem, a retirada de Nicarágua. A ação do comandante Davis, facilitando por meio do navio Saint Mary’s a retirada de Nicarágua ao general Walker e aos seus soldados, foi pois aprovada por este ministério.”
Inglês: “It was deemed necessary, as a measure of humanity and policy, to direct commodore Mervine to give general Walker and such of his men, as were willing to embrace it, an opportunity to retreat from Nicaragua. And the action of commander Davis, so for as he aided general Walker and his men, by the use of the Saint Mary’s to retreat from Nicaragua, was approved by this Departement.”
Congressional Globe, part. I, lst. session, 85th. congress, 1857 - 1858, pag 356.
(25) — Von Holst, Constitutional History of the United States, 1856-1859, pag. 160.
(26) — Haydn’s, Dictionary of dates 1889, ibidem.
(27) — Calvo, Traité théorique et pratique de droit international.
Von Holst, vol. IV, pag. 11.
Na grande obra do sr. Calvo a data do bombardeio é dada como em 1834, e noutra sua obra como em 1835. Erros de revisão desta ordem são numerosos nas preciosas e utilíssimas compilações do sr. Calvo. Por isso é preciso um certo cuidado com as informações que elas nos fornecem, sendo sempre bom ir verificar as fontes citadas que, sendo numerosíssimas, nem todas puderam ser convenientemente resumidas pelo autor. Assim, o sr. Calvo não fala do protesto, importantíssimo aliás, do comandante do Bermuda, e é de estranhar que episódios da importância das expedições Walker não sejam sequer tratados pelo escritor argentino.
(28) — Hertslet, A complete colection of treaties, etc. vol. VIII, pag. 969 e vol. X, pag. 645.
(29) — Elisée Reclus, Géographie Universel, tomo XVII pag. 484, diz: “La côte dite de Mosquitia ou des Mosquitos fut revendiquée par le gouvernement anglais, et si les États Unis n’étaient intervenus, tout l’espace compris entre la rivière de Nicaragua et la baie de Honduras serait devenu territoire britannique comme l’est actuellement le pays de Belize. En vertu de la doctrine de Monroe, l’Amérique reste aux Américains et le litoral de la mer des Caraïbes est restitué à la République du Nicaragua”.
Esta afirmaçâo do ilustre geógrafo é inteiramente falsa. A intervenção doa Estados Unidos foi seguida da negativa de Lord Clarendon. Em 1860, pelos tratados de 28 de janeiro e 11 de fevereiro, assinados em Manágua, a república de Nicarágua fez muitas concessões à Inglaterra quanto ao trânsito do istmo, e cedeu à república de Nicarágua o protetorado da Costa do Mosquito.
Em troca de concessões análogas feitas pelo Honduras, a Inglaterra reconheceu, com várias restrições, o domínio dessa república sobre as ilhas do Honduras pelo tratado de 28 de novembro de 1859.
Nos Estados Unidos esses tratados foram considerados como vitórias da diplomacia inglesa e foram muito atacados, prova de que não foram celebrados, graças aos Estados Unidos, como diz o sr. Réclus.
(30) — A construção desta esquadra foi ensejo para grandes escândalos administrativos entre o ministério da marinha e os construtores. Ficou provado que os construtores e empregados superiores da marinha roubaram descaradamente o tesouro. Basta dizer que o governo pagou como encouraçados navios que não o são.
(31) — Sobre esta expedição ler: America y España, de D. José Ferrer de Couto, Cadiz, 1859.
(32) — Vide Nueva Granada y los Estados Unidos de America, Final contestacion diplomatica. Bogotá, 1857; Manifiesto dirijido à la nacion por algunos representantes sobre ei convênio Herran - Cass. Bogotá, 1858.
(33) — O direito do Peru é demonstrado à saciedade na correspondência oficial, trocada a esse propósito entre os governos de Washington e de Lima. Vid. Question between the United States and Peru. Diplomatic correspondence. Lima, 1861.
(34) — Alberdi, tradução de Th. Mannequim, Paris, 1866, Antagonisme et solidarité des états orientaux et des états occidentaux de l’Amérique du Sud, pag. 155. — Enquanto os Estados Unidos mostravam esta indiferença diante do assalto da Espanha às repúblicas do Pacífico, o Brasil monárquico, embora a braços com as dificuldades da guerra do Paraguai, respondia ao apelo do Chile pela seguinte forma:
“Correspondendo ao honroso apelo do governo chileno, o governo de Sua Majestade o Imperador autoriza o abaixo assinado a assegurar a v. exa. que, de perfeito acordo com as considerações exaradas por v. exa., o governo imperial não vacilará em prestar com o maior prazer o concurso dos seus bons ofícios e do seu apoio moral para que não prevaleçam princípios que ofendam a autonomia e os legítimos interesses dos estados do continente sul-americano.”
Estas palavras são de uma nota dirigida a 7 de junho de 1864 a D. Manuel A. Tocornal, ministro das relações exteriores do Chile pelo conselheiro João Pedro Dias Vieira, ministro dos negócios estrangeiros do império.
(35) — Calvo, Droit international théorique et pratique, §1268.
(36)Defensa de los derechos de Venezuela, Caracas, 1878.
(37) — Washburn, History of Paraguai, 2 vols.
(38)Paraguayan Investigation. Report of Comitee of Foreign affairs.
(39) — Vide Harper’s New Monthly Magazine, vol. XL.
(40) — Vide Harper’s New Monthly Magazine, vol. XL, pag. 423.
(41) — Ibidem, pag. 428.
(42) — Ibidem.
Segundo um correspondente do Paiz de Nova York, este nosso velho inimigo voltou agora à cena numa circunstância humilhante para o Brasil.
“O United States Service Club recebeu solenemente o almirante Benham. O discurso de felicitação foi proferido pelo general mr. T. Mac-Mahon, muito conhecido no Brasil como amigo particular de Solano Lopez e nosso implacável difíamador durante a guerra do Paraguai.
“Eis o discurso: “Almirante. Preferiria nada dizer para não colocar-vos na contingência de fazer um discurso, o que será para vós uma perspectiva terrível; entretanto é necessário que eu exprima a satisfação de vos ver entre nós, e vos manifeste quanto nos encheis de justo orgulho, não só como cidadão americano como na qualidade de oficial da nossa armada. O vosso procedimento no Brasil foi inspirado pelo dever em honra da nação e da sua bandeira. Que ele era indispensável, posso afirmá-lo pela experiência pessoal de um quarto de século. Era necessário para convencer aqueles amigos nossos (se são com efeito amigos) que a nação americana nada perdeu ainda do seu prestígio, que será mantido sempre à face do mundo inteiro. O vosso proceder demonstrou que o direito internacional das relações do nosso país não pode ser desrespeitado impunemente. As repúblicas sul-americanas devem ser-nos agradecidas pelo que fizemos e estamos fazendo por elas, ou antes, pela humanidade, com o exemplo que lhe damos.”
“O almirante respondeu: “Do fundo do coração agradeço-vos a cordial recepção que me fazeis. Quanto ao meu procedimento no Brasil e aos efeitos que ele tenha produzido, penso que, sem contestação, concorreu para tornar-nos bons amigos daquele país. Esta amizade baieia-se no respeito, e talvez em alguma coisa mais. (That friendship is founded on respect with perharps a little tinge of something else)”.
“Estas palavras, diz o correspondente do Paiz, provocaram uma tempestade de aplausos e gargalhadas.
“Seguiram-se os cocktails do estilo e um grande bródio, em que foi nota dominante do humor yankee a pilhéria do almirante, considerada genuína e rude expressão da verdade.”
Eis como um almirante americano diz dever ser a amizade do Brasil para com os Estados Unidos. Respeito e... alguma coisa mais, isto é, medo e subserviência!
(43) — Ofícios de Caxias ao ministro brasileiro em Buenos Aires, de 13 de março de 1867; idem de 15 do mesmo mês e ano ao ministro da guerra.
(44) — Calvo, Droit international théorique et pratique, §1269.
(45) — U. S. House of Representatives docs. 31st. Congress vol. 7. Doc. 19.
(46) — U. S. of Representatives docs. Congress 32. Sess. I. 1851-52, vol. 6, doc. n.° 75.
(47) — Vide Herndon, The Valley of the Amazon.
(48)The Amazon and the Atlantic, slopes of South America. Washington, 1853.
(49)De la navegacion del Amazonas. Montevideu, l854.
(50) — O sr. barão do Penedo.
(51) — Notas de 20 de abril e de 23 de setembro de 1853.
(52) — Certes, que le Peau Rouge admire le Borusse.
C’est tout simple; il le voit aux brigandages prêt
Fauve atroce; et ce bois comprend cette forêt;
Mais que l’home incarnant le droit devant l’Europe,
L’home que de rayons Colombie enveloppe
L’home en qui tout un monde héroïque est vivant,
Que cet home se jette a plat ventre devant
L’affreux sceptre de fer des vieux âges funèbres
Qu’il te donne, ó Paris, le soufflet des ténèbres,
..................................................
Qu’il montre à l’univers sur un immonde char
L’Amérique baisant le talon de César,
Oh! cela fait trembler toutes les grandes tombes!
Cela remue, au fond des pâles catacombes,
Les os des fiers vainqueurs et des puissants vaincus!
Kosciusko frémissant réveille Spartacus;
Et Madison se dresse et Jefferson se lève;
Jackson met ses deux mains devant ce hideux rêve;
“Déshonneur!” crie Adams; et Lincoln étonné
Saigne, et c’est aujourd’hui qu’il est assassiné.
.................................................
Bancroft, este fica para sempre imortalizado pela extraordinária ode que o poeta lhe dedicou:
Bancroft
Qu’est ce que cela fait à cette grande France?
Son tragique dédain va jusqu’à l’ignorance,
Elle existe et ne sait ce que dit d’elle un tas
D’inconnus, chez les rois on dans les galetas.
Soyez un va nu pieds ou soyez un ministre,
Vous n’avez point du mal la majesté sinistre,
Vous bourdonnez en vain sur son éternité.
Vous l’insultez. Qui donc avez-vous insulté?
Elle n’aperçoit pas dans ses deuils ou ses fêtes,
L’espèce d’ombre obscure et vague que vous êtes.
Tâchez d’être quelqu’un. Tibère, Gengiskan
Soyez l’homme fléau, soyez l’homme volcan,
On examinera si vous valez la peine
Qu’on vous méprise. Sinon, allez-vous en. Un nain
Peut à sa petitesse ajouter son venin
Sans cesser d’être un nain et qu’importé l’atome?
Qu’importe l’affront vil qui tombe de cet homme?
Q’importent les néants qui passent et s’en vont?
Sans faire remuer la tête énorme, au fond,
Du désert où l’on volt rôder le lynx féroce,
Le stercoraire peut prendre avec le colosse
Immobile à jamais sous le ciel étoilé,
Des familiarités d’oiseau vite envolé.
Vid. Aron, Les républiques sœurs.
(53)Official Reports of the war department or tne department of the interior.
(54) — Resume muito bem esta questão e confirma com mil casos o que dizemos, o seguinte livro: A century of Dishonour by H. X. London, 1881. 8o.
(55) — Quarterly Review, vol. LXII, pag. 150.
(56) — James A. Whitney, The Chinese and the Chinese Question, Nova York, 1880, pag. 41.
(57) — Ainda ultimamente, num congresso, em Milão, vimos os representantes da Alemanha cesarista e da Itália monárquica, manifestarem-se a favor das pensões aos inválidos do trabalho, enquanto que os enviados da república francesa Yves Guyot e Léon Say, republicanos, opuseram-se com ardor a essa medida humanitária, já adotada na Alemanha.
(58) — J. I. von Döllinger, tradução inglesa sob o título: Studies in European History translated by Margaret Warre, London, 1890, pag. 24.
(59) — Dizia Stendhal que quando se começa a falar muito no princípio de alguma coisa é porque essa coisa já não existe. Fala-se muito hoje no Brasil em princípio de autoridade. E porque já não existe a autoridade, que foi substituída pela opressão.
(60) — Estas linhas foram escritas em fins de 1893. Em 1894 as espantosas paredes de Chicago vieram dar razão ao autor.
(61) — A comissão do orçamento da câmara dos deputados do Brasil em 1894 avaliou o prejuízo do tesouro em 3:000 por trimestre sejam 12:000 contos de réis por ano. Ora o tratado durou anos, dando assim ao Brasil um prejuízo de contos de réis!
(62) — As últimas eleições americanas foram contrárias à política ultra-protecionista e de reciprocidade. Com quebra da fé internacional que estipulava um prazo de três meses de aviso à outra parte contratante, para a cessação do tratado, os Estados Unidos restabeleceram os antigos direitos, dando grande prejuízo aos produtores de açúcar do norte do Brasil e ao comércio brasileiro, que contava com os três meses de aviso. No momento em que escrevemos a Alemanha reclama energicamente contra fato idêntico, em relação aos seus produtos. O governo do Brasil denunciou o tratado Blaine-Salvador, e de janeiro de 1895 em diante os produtos americanos pagam os mesmos direitos aduaneiros que os de outras nações.
(63) — Ed. Winslow Martin, Behind the scenes in Washington, pag. 140.
(64) — Todas as particularidades deste incidente acham-se na obra de Paul Eudel, L’Hôtel Drouot em 1885. Paris, 1886, pag. 145.
(65) — Como se sabe a questão foi sujeita ao juízo arbitral do Rei dos Belgas, que deu razão ao Brasil. Quase toda a imprensa inglesa foi a nosso favor. Na câmara dos comuns lutaram por nós oradores ilustres como John Bright, Cobden, Lord Cecil (hoje Lord Salisbury) e muitos outros. O ministro Christie apresentou-se candidato à câmara dos comuns por Oxford, declarando que a sua eleição seria considerada a aprovação do seu procedimento no Brasil. Oxford derrotou-o. Encontraríamos porventura nos Estados Unidos tanto amor à justiça?
(66) — Outubro de 1893.
(67) — Plínio, Hist. Nat., liv. VII, 60.
(68) — Poderíamos citar vários episódios da tentativa de colonização americana no Brasil, que mostram quão grande foi o seu insucesso. O sr. Quintino Bocaiúva escreveu em 1867 um folheto aconselhando a vinda dos chins para o Brasil. Em seguida à sua publicação recebeu o sr. Bocaiúva uma comissão do governo imperial para ir buscar esses colonos americanos aos Estados Unidos. A comissão redundou em pura perda; o sr. Bocaiúva voltou trazendo bandos de desordeiros e assassinos que muito deram que fazer à polícia do Rio. Vide os jornais do tempo.
No relatório do sr. Saldanha Marinho, presidente de S. Paulo (1868), lê-se: “Tendo mais de cem famílias americanas se estabelecido em terras que demoram nas proximidades do rio S. Lourenço, município de Iguape, e pretendendo-se a abertura de uma estrada que ligue tal colônia à cidade de Santos, a lei vigente do orçamento provincial autorizou o governo a auxiliar a abertura dessa via de comunicação com a quantia de cinco contos de réis. Esta quantia foi entregue por ordem do meu antecessor, ao coronel norte-americano Bowen. Ignora-se qual o emprego que teve essa quantia”. Essa malfadada colônia chamava-se Nova Texas. O Texas de Iguape não foi para o Brasil o que outro Texas foi para o México.
(69) — Este curioso documento acha-se nos U. S. Senate Docs., Congress 32, session I, 1851-1852, vol. 9, doc. n.° 73, pag. 5.
(70)Narrative of the U. S. Exploring Expedition during the years 1838-1842, by Charles Wilkes, U.S.N.
(71)North-American Review, vol. 61, pag. 57.
(72) — ... constantly keeping in view that it is folly in one nation to look for desinterested favours from another; that it must pay* with a portion of its independence for whatever it may acept under that character. There can be no greater error than to expect or calculate upon real favours from nation to nation.
(73) — Os primeiros meses da revolta naval 1893-1894.
Variantes
* — “Silomões” na fonte digital
* — “quanto” na fonte digital
* — “contida” na fonte digital
* — “Lor” na fonte digital
* — Há, aqui, um empastelamento na fonte digital: a página 33 vem após a 46, adiante- correção feita na presente edição.
* — “na costa desertas” na fonte digital
* — “no Honduras” na fonte digital. O uso da elípse de ‘país’, aqui e em outras passagens do texto, foi substituído pela expressão atual quanto ao país.
* — “de” na fonte digital
* — “a” na fonte digital
* — “oiro” na fonte digital
* — “cousassem” na fonte digital
* — “par o” na fonte digital
* — “Columbia” na fonte digital
* — “a saldo” na fonte digital
* — “composta” na fonte digital
* — “a Amazonas” na fonte digital
* — “europeís” na fonte digital
* — “vem miudamente narrados” na fonte digital
* — “da ámanhã” na fonte digital
* — “apoligista” na fonte digital
* — “suisso se lansquenetes” na fonte digital
* — “não só benefícios” na fonte digital
* — “reboliço” na fonte digital
* — a “Ilusão Americana” na fonte digital.
* — “paz” na fonte digital.


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